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Esporte


Olimpíadas em casa: uma pressão extra ou um importante aliado ?
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Os ombros pareciam pesar mais do que o normal. Ali, atrás daquele bloco de partida, não estava apenas o velocista Brett Hawke. Carregava com ele as expectativas da família, dos amigos, dos australianos, além das suas próprias. Aos 25 anos, disputava pela primeira vez as Olimpíadas,
exatamente em Sydney, sua cidade. Por isso mesmo, a pressão que sentia era ainda maior. O adversário não estava na raia ao lado. Estava na cabeça. O pensamento de não poder frustrar o sonho de tanta gente era recorrente. E se materializou com o 13º lugar nos 50m livre. Alguns de seus companheiros subiram ao pódio, mas a sensação que deveria ser de felicidade foi trocada
pela de alívio. Quatro anos depois, o peso não parecia tanto. Hawke entrou na final com o segundo melhor tempo e terminou em sexto. Diz que a difícil experiência de competir no quintal de casa o preparou para a edição de Atenas e também para a vida como treinador. Lição preciosa que ele pretende passar a Bruno Fratus e Marcelo Chierighini, para que consigam amenizar a pressão e tomem a voz da arquibancada como aliada nos Jogos do Rio. 

Brett Hawke natação Olimpíadas 2000  (Foto: Getty Images)Brett Hawke (touca amarela) em ação nas Olimpíadas de Sydney (Foto: Getty Images)



Em Sydney 2000, a euforia com aquela poderosa equipe de natação era justificável. O Comitê Olímpico Australiano optou por isolá-la num hotel durante a preparação. Não permitia nem mesmo que os jornais chegassem até os atletas. Numa época sem redes sociais ou smartphones, foi fácil fazê-los perder a noção do que acontecia do lado de fora. Apesar da blindagem e de tudo o que foi oferecido para passarem por aquele desafio diferente, nem todos tiveram a mesma reação quando se depararam com o mundo real. A vivência de Brett o faz ter a certeza de que será essencial conseguir manter seus pupilos concentrados e relaxados. A mesma preocupação têm outros renomados técnicos, atletas e o Comitê Olímpico Brasileiro (COB), que buscam mecanismos para fazer com que realmente seja uma vantagem competir em solo nacional.  

Confira nesta quinta-feira a segunda matéria, sobre os efeitos da internet e o trabalho para evitar distúrbios do sono e controlar a ansiedade

- Era como se estivéssemos numa bolha. A única coisa que importava era a equipe e a preparação. Fizemos treinamento de mídia e passamos por muitos exercícios para nos preparar para tudo o que teríamos de enfrentar. Mas foi impossível controlar a emoção na primeira vez como olímpico. A pressão de competir em casa foi muito maior para mim. As pessoas simplesmente esperavam que eu fosse ganhar uma medalha. Família e amigos estavam atrás de ingressos para me verem nadar. Senti como se estivesse vivendo o sonho de todo mundo. Era muito difícil viver de acordo com as expectativas de todos, além da minha. Meu trabalho é preparar meus atletas para os Jogos e não torná-los maiores do que já são. Vou ensinar a Marcelo e Bruno tudo o que sei para que não cometam os mesmos erros que eu cometi. O bom é que a maior parte da preparação será feita em outro país. Eles não vão sentir as mesmas expectativas e pressão até que estejam nos Jogos em si. A multidão estará atrás deles, então, deverão estar preparados para uma onda de emoção quando entrarem na piscina - disse Hawke. 

E será das grandes. Daquelas que chegam com força e poucos conseguem dominar. Por isso, o trabalho psicológico é considerado um ponto importante antes e durante o evento. O COB deverá contar com 15 profissionais em sua delegação. Alessandra Dutra será uma delas. Psicóloga da seleção feminina de handebol, ela diz que as armadilhas poderão ser maiores em 2016 para um grupo que colocou no currículo, no ano passado, o título mundial. O grau de exigência - das jogadoras e da torcida - será elevado. 

- A pressão pode derrubar um atleta. Quando se chega a um nível de performance igual, é o mental que faz a diferença, é o detalhe que faz ganhar ou perder. Latinos são considerados mais emotivos. Os atletas são mais sensíveis à manifestação da torcida porque são criados para corresponder às expectativas. É preciso desmistificar isso para que vejam o jogo e não o que está em jogo. Vejo uma diferença entre os que treinam fora do país e os que estão aqui. Os que moram fora e vêm competir no Brasil não sentem tanta pressão porque a torcida e a família estão com eles. Acaba sendo um prazer e uma forma de matar a saudade. Para os que treinam aqui a pressão costuma ser outra, mas não dá para generalizar. O brasileiro é um torcedor muito exigente e expressa com forças o que gosta ou não. Sofre, grita, joga junto e se sente traído como torcedor quando o atleta perde. Aqui a gente tem essa dificuldade - afirmou. 

Alessandra Dutra, handebol (Foto: Reprodução/Facebook)Alessandra Dutra (à esquerda) conversa com seleção de handebol (Foto: Reprodução/Facebook)

Pesquisas feitas desde a década de 70 sobre a teoria da vantagem em casa nas Olimpíadas dão conta de que o ruído da multidão tem mais efeito na tomada de decisão dos árbitros em esportes mais subjetivos do que sobre os competidores. Outras dizem que a performance dos atletas anfitriões também pode ser aumentada em 0,5% por conta do apoio vindo da arquibancada. Nos estudos, fatores como familiaridade dos atletas com os locais de disputa e o fato de não sofrerem com longa viagens e fuso horário também são considerados. Além deles, dados estatísticos são usados para reforçar a teoria: na história da competição, os países sede deram um salto de qualidade no quadro de medalhas devido ao investimento na preparação. Nas duas edições passadas, China e Grã-Bretanha brilharam. Os chineses passaram de um total de 63 medalhas (32 ouros) para 100 (51), em 2008. Já os britânicos saíram de 47 (19 douradas) para 65 (29).

Em 2016, o Brasil tem como objetivo passar do 22º lugar para o top 10. Para entrar no grupo das nações que costumam faturar entre 25 e 32 medalhas, precisará subir ao pódio em 13 modalidades, segundo o plano estratégico do COB. Entre as ações para tentar cumprir a missão, a entidade investe em Ciência e toma emprestada a experiência de profissionais que conduziram com sucesso a preparação da delegação britânica para os Jogos de Londres 2012.  

- Em 16 anos dando soco na bola eu adorava jogar com a torcida a favor. Acho pressão mais positiva do que negativa. O apoio para mim é mais forte do que a pressão. Vamos investir em psicologia e em ciência. Fomos ouvir John Underwood (consultor de desempenho da Marinha dos EUA). E também fomos buscar gente que teve experiência em "home advantage" como Clive Woodward (ex-diretor da Associação Olímpica Britânica) e Sue Campbell (ex-presidente da UK Sport), que virou nossa consultora. Uma das ações que fizeram em Londres 2012 e que vamos repetir é não abrir a Vila para amigos e familiares, a fim de evitar a pressão e não causar desconcentração. Porque senão vira a Disney. Vamos abrir a casa da família do Time Brasil. Quando algum atleta quiser ver os pais e amigos, é só ir lá. Vamos passar o que é benéfico para eles ou não com relação a internet e sono. Faz parte o papel de educar para que saibam o melhor caminho - disse Marcus Vinícius Freire, superintendente executivo de esportes do COB.  

Robert Scheidt, Olimpiadas 2004 (Foto: Agência Reuters)Robert Scheidt com o ouro conquistado nos Jogos de Atenas 2004 (Foto: Agência Reuters)

Robert Scheidt, dono de cinco medalhas olímpicas, já sabe de cor e salteado o seu. O velejador é tido por dirigentes da entidade como um fora de série dentro das delegações. Referência de sangue frio, autoconhecimento e concentração. Cesar Cielo e Arthur Zanetti também são citados como bons exemplos de espírito competitivo. Reúnem características que compõem o que Clive Woodward chama de DNA de um campeão. 

Nos tempos de técnico da seleção britânica de rúgbi, resolveu levar seus jogadores para trabalhar com os fuzileiros, considerados por ele como ótimos atletas. Sabiam correr com peso nas costas, eram durões e treinados para suportar pressão. 

- Pense em como é a pressão quando se pula numa zona de guerra. Eles passavam muito tempo na sala de aula que chamam de sala de guerra. Uma sala de reunião onde se tem que aprender, capturar conhecimento e estudar, o que aumenta a chance de uma tomada de decisão correta. Eu criei uma para os atletas com um relógio, um placar e um quadro em branco. Cinco minutos antes do jogo eu perguntava o que fariam diante de uma determinada situação. Se ele não pudesse me responder imediatamente, quando perguntado diante de toda a equipe, não era um guerreiro. Na Copa do Mundo de rúgbi de 2003, a Austrália fez um gol faltando 90s para o fim do jogo e empatou com nossa equipe. Restando 35s, Matt Dawson jogou a bola para trás, o que não seria o lógico, mas que foi treinado por nós na sala de aula, e Jonny Wilkinson virou herói. Então, eu defino talento como a capacidade de fazer a tarefa - disse. 

Jessica Ennis no telão do Estádio Olímpico (Foto: Cahê Mota / Globoesporte.com)Jessica Ennis recebe o apoio da torcida ao ser apresentada antes da disputa (Foto: Cahê Mota / Globoesporte.com)



Mas Woodward deixa claro que talento sozinho não é suficiente. Aqueles que têm capacidade para ser um campeão precisam ter paixão por aprender. 

- Já vi muitos talentosos aos quais não se podia ensinar. Eram rochas e não esponjas. Os que têm capacidade para ser campeões absorvem conhecimento. É importante entender como se pode melhorar o desempenho. Quando eu tinha jogo em casa era ótimo, e a pressão era dupla. Os verdadeiros campeões são os que conseguem pensar corretamente sob pressão. Jessica Ennis era o rosto dos Jogos Olímpicos de Londres. A expectativa era muito grande. Mas os vencedores desempenham da melhor forma quando estão com a maior das pressões (ficou com o ouro no heptatlo). Pressão é bom. Quanto maior, melhor as pessoas se tornam. 

O QUE ELES DISSERAM

 

vôlei josé roberto guimarães brasil casaquistão grand prix (Foto: FIVB)Zé Roberto (Foto: FIVB)

José Roberto Guimarães - "Vai ser uma situação diferente. Vamos ter muita pressão porque nosso time ganhou as duas últimas Olimpíadas e isso não quer dizer que essa está ganha. A competição será muito difícil. Jogar em casa vai ser uma pressão maior. Por isso, pedi à CBV para que façamos mais jogos aqui para nos habituarmos com essa atmosfera. Quero encontrar dificuldades e ser testado o tempo inteiro sob pressão. Vai ser preciso trabalhar bem o lado psicológico também. A gente sabe da nossa responsabilidade. Temos que nos preparar para que a torcida não seja um adversário extra, mas um jogador a mais. Como foi em Londres, quando gritou "o campeão voltou" e nos ajudou de maneira fantástica. Eu já venho me preparando, principalmente emocionalmente. Conto os dias para o Rio. Não descanso a cabeça com relação a isso. Todos os brasileiros vão ficar esperançosos por medalhas. Seria a glória maior ganhar em casa." 

Bernardinho na partida Brasil e Russia vôlei (Foto: Reuters)Bernardinho (Foto: Reuters)

Bernardinho -"Jogar no Brasil vai ter uma série de questões. Na Copa das Confederações houve manifestações e talvez aconteça isso nas Olimpíadas. Espero que tenha transparência com relação aos gastos para que a gente possa ter tranquilidade, porque isso pode gerar tensão. O importante é que os atletas se fechem em torno da disputa esportiva e consigam se blindar. Famílias e amigos precisam entender que não haverá muito espaço para eles, para que não se perca o foco. Vai haver mais assédio e faz parte do processo. Todo dia estamos nos preparando para a cobrança e adversidades. Já solicitamos que seja disputada uma fase final ou de Liga Mundial ou Copa do Mundo aqui em 2015 porque esse time pouco jogou no Brasil. Gosto de campeonatos em casa, mas o aspecto de distração me preocupa muito." 

ruben magnano brasil x uruguai (Foto: Fiba.com)Rubén Magnano (Foto: Fiba.com)

Rubén Magnano - "Temos um trabalho importante para fazer (dirigentes, comissão técnica e atletas) para transformar o que não é simples: pressão em um desafio. Mas temos um grupo de jogadores que já viveram situações limite em competições. Muitos conhecem o que é lutar por um campeonato, por uma final, e isso ajuda muito para que consigam suportar a pressão. Se somos inteligentes vamos aproveitar o efeito Jogos Olímpicos em casa. Espero que a equipe reaja de maneira positiva. Temos dois anos para trabalhar e recuperar a credibilidade. O que a torcida cobra é comprometimento e não há outra maneira de fazer isso do que dizendo "presente". Quando fui campeão olímpico com a Argentina (em Atenas 2004), tive um percentual maior de sim do que não. E foi importante a equipe declarar que iria para a medalha. De que não era só um sonho. Aquilo marcou aquela seleção. Temos que tratar de imitar essa situação". 

cesar cielo natação ouro natação barcelona (Foto: Satiro Sodre/SSPress)Cesar Cielo (Foto: SSPress)

Cesar Cielo - "Acho que a parte externa que cerca uma competição como essa - família, mídia, amigos - será adicional, o mais difícil de controlar. Vai ter uma expectativa maior nesse período pré-olímpico. Mas também é uma coisa que um atleta de alto nível tem que controlar. É uma Olimpíada, a pressão existe sendo no Brasil, na China ou na África. Mas como será aqui, acaba sendo também uma força extra. Para qualquer atleta que está almejando um grande resultado, confiança é provavelmente um dos pontos mais importantes. No meu caso, crio confiança no meu treino. De fazer as coisas um dia melhor do que no outro. Perto das Olimpíadas, o atleta tem que ficar um pouco mais egoísta mesmo, fazer o que acha que é importante para ele individualmente para realmente não ter nenhum arrependimento ou sensação de que poderia ter feito diferente para chegar melhor nos Jogos."  

Arthur Zanetti ginástica argola ouro (Foto: EFE)Arthur Zanetti (Foto: EFE)

Arthur Zanetti - "Por enquanto estou tranquilo, mas sei que na hora vai afetar um pouco porque a competição é dentro do Brasil. Eu estava no Pan do Rio, do lado de fora, e vi que é bem difícil mesmo o ginásio todo torcendo. Então, desde já estou trabalhando minha concentração com minha psicóloga. Estamos simulando situações, tudo o que pode acontecer. Estou me preparando para conseguir fazer uma boa classificatória e, se passar para a final, fazer a minha parte e tentar esquecer que as Olimpíadas são no Brasil. Tenho que pensar que é outra competição internacional para que não me prejudique. Vou evitar também internet para não me estressar. Eu lido bem com pressão. Na hora da competição eu não ouço nada. Consigo isolar a parte do som e visão. Fico tão concentrado no que vou fazer que não escuto nada. Esqueço tudo o que está em volta e só penso na apresentação."

 

 

 

 

 

 


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