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Esporte


Profecia, forte amizade e teste na Indy: Emerson lembra histórias com Senna
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Era uma tarde de primavera nos Estados Unidos. Bicampeão da Fórmula 1 e campeão da Indy, o consagrado Emerson Fittipaldi testava sua Penske no Michigan Speedway para as 500 Milhas de Indianápolis. Ele estava no meio de uma simulação de corrida quando foi chamado repentinamente para os boxes. Primeiramente, pensou que era algum problema no carro. Mas seu chefe logo emendou: “Sua mulher quer falar com você”. Emerson gelou. Sabia que era alguma notícia trágica. Ao pegar o celular recebeu o baque: Ayrton Senna tinha acabado de morrer. Era 1º de maio de 1994.

- Havia um código de segurança com a equipe: quando você anda muito rápido em um oval, se a equipe chamar, você tem que tirar o pé na hora, pois pode ter alguma coisa errada no carro. Eu passei na frente do box e o chefe gritou pelo rádio “Pit! Pit!”. Tirei o pé imediatamente. Aí eu perguntei se tinha alguma coisa errada no carro e ele disse “Não, não. Vem para os boxes”. Eu achei estranho, porque estava na volta 17 e faltavam mais de dez voltas para completar o segmento. Quando eu estava entrando nos boxes ele disse: “Sua mulher quer falar com você”. Logo pensei: “É tragédia. Fiquei gelado, branco. Eu tinha certeza que era um problema com algum de meus filhos”. Aí a Tereza disse: “Ayrton acabou de morrer em Ímola”. Fiquei muito abalado. Eu parei o carro e fui embora. Não consegui mais continuar e nem a equipe quis mais continuar. Ficaram todos abalados, porque eram os mesmos que testaram com o Ayrton anos antes – conta Emerson Fittipaldi, na semana que completa-se 20 anos do acidente fatal que vitimou Senna no GP de San Marino.

A PERDA

Não era uma tragédia com nenhum de seus filhos. Mas Emerson sentiu como se fosse. Ele e Ayrton eram grandes amigos. Fittipaldi - que durante sua passagem na F-1, na perigosa década de 1970, teve que encarar de frente a morte de tantos companheiros de profissão nas pistas - teve dificuldades para absorver a perda de Senna.  Parou de treinar na hora, pegou um avião e foi para sua casa na Flórida. Ficou lá, de luto, sem falar com ninguém por dois dias, até vir para o Brasil para o velório e enterro do amigo. Foi ele um dos que ajudou a carregar o caixão.

- O Ayrton era aquela pessoa que você nunca imaginava que aconteceria isso. Tem alguns pilotos que você pensa “Esse não vai morrer nunca em um acidente de corrida”. A F-1 já estava mais segura. E aí morre aquele rapaz no sábado e ele domingo – disse Emerson, com a voz embargada, lembrando também da perda do austríaco Roland Ratzenberger no treino classificatório.

Enterro de Ayrton Senna em 1994 (Foto: Wilson Pedrosa / Agência Estado)Enterro de Ayrton Senna em 1994 (Foto: Wilson Pedrosa / Agência Estado)

O INÍCIO DA AMIZADE

A amizade entre os dois começou antes mesmo de Senna entrar na Fórmula 1. Foi no fim da década de 1970, em Interlagos. Naquela época, Emerson já era um consagrado bicampeão mundial, enquanto Ayrton era um jovem cheio de ambições.

- Quando eu testava a Copersucar, o Ayrton vinha com o pai dele sempre depois que ele saía do kartódromo e ficávamos conversando. Ele tinha uns 14, 15 anos, e já estava andando muito rápido aqui no Brasil. 

 Ele foi o piloto que mais tirou do carro e que mais tirou dele como ser humano. Ele pilotava muito no limite: dele, do carro e da pista.
Emerson Fittipaldi, sobre Senna

Um dos principais responsáveis por abrir a porta dos brasileiros na Europa e popularizar a Fórmula 1 no Brasil, Emerson também teve participação importante no começo da carreira de Senna no Velho Continente. Ele, juntamente com Chico Serra, indicou Senna para Ralph Firman, dono da equipe inglesa Van Diemen de Fórmula Ford 1600, categoria porta de entrada do automobilismo europeu.

- Antes de ele ir para a Europa, ele passou no meu escritório e eu liguei para o Ralph Firman, dono da Van Diemen, e falei “Olha, tem um piloto brasileiro que está indo para aí. Pega ele para sua equipe, porque ele vai ganhar o campeonato de Fórmula Ford”. E não deu outra. O Ayrton chegou lá, ganhou e o Ralph ficou muito feliz.

Ayrton Senna na Fórmula Ford 1600: campeão logo no primeiro ano na Europa, em 1981 (Foto:  Arquivo de Família©ASE)Emerson indicou Senna para Firman aa F-Ford 1600: o brasileiro foi campeão de cara (Foto:Arquivo de Família&;ASE)

 

 

A PROFECIA

Testemunha do talento ímpar daquele garoto nos kartódromos do Brasil e no primeiro ano da Europa, Emerson não teve dúvidas: diante de seus olhos estava um futuro campeão. E durante o GP da Áustria de 1981, em Zeltweg, quando Senna já se encaminhava para confirmar sua aposta e ser campeão da F-Ford 1600, Emerson fez questão de compartilhar sua profecia com os chefes de equipe da Fórmula 1.

- Como o Ayrton era muito tímido, eu estava com ele no GP da Áustria e disse: “Ayrton, quando acabar o treino vou te levar a todas as equipes de F-1 e vou te apresentar”. E aí eu o surpreendi. Eu chegava para todo mundo e falava: “Este é Ayrton Senna da Silva. Futuro campeão mundial”. E ele ficava todo sem jeito – lembrava, aos risos, Emerson.

Ayrton Senna campeão Fórmula 1 1991 (Foto: Getty Images)Senna campeão em 1991 (Foto: Getty Images)

Nos anos seguintes, a profecia de Emerson se concretizou. Ayrton não só foi campeão de Fórmula 1 como repetiu o feito mais duas vezes, superando o número de títulos do amigo e passando a ser considerado por muitos especialistas como o maior piloto de todos os tempos da categoria. Algo que Emerson concorda:

- Eu acho que ele foi o melhor. Se olhar pegar a história do automobilismo, você tem campeões fantásticos desde o Tazio Nuvolari até o Sebastian Vettel hoje. Mas na nossa era, na era que eu vivi, sem dúvida, ele foi o melhor. A habilidade e o talento dele sempre foram excepcionais. O empenho, o comprometimento e a dedicação dele sempre foram muito grandes. Ele foi o piloto que mais tirou do carro e que mais tirou dele como ser humano. Ele pilotava muito no limite: dele, do carro e da pista. O talento que ele tinha era de pilotar sempre no limite. Aquelas voltas de classificação eram impressionantes. Aquela primeira volta em Donington... no dia seguinte eu liguei para ele e brinquei: “Você nunca mais vai repetir essa volta na vida!” – destacou um nostálgico Fittipaldi, relembrando os shows de Senna em treinos classificatórios e naquele histórico GP da Europa de 1993.

O TESTE DE SENNA NA INDY

Ayrton Senna testou o carro de Emerson Fittipaldi da Fórmula Indy (Foto: Arquivo Pessoal)Ayrton Senna testou o carro de Emerson Fittipaldi da Fórmula Indy (Foto: Arquivo Pessoal)

A grande amizade entre Emerson e Senna rendeu um dos casos mais curiosos da carreira do tricampeão da F-1. Era fim de 1992 quando os dois jantavam em um restaurante em São Paulo. Insatisfeito com a queda de produção da McLaren, Ayrton queria se transferir para a Williams e ameaçava até se retirar da F-1 se não conseguisse. Foi quando Fittipaldi teve uma ideia: o convidou para testar seu carro na Indy. Convite prontamente aceito. Dias depois, em 20 de dezembro, lá estavam os dois no autódromo de Firebird. Senna experimentou a Penske-Chevy do amigo e precisou até de algumas almofadas para não ficar solto no cockpit:

- Ele testou meu carro da Indy lá em Phoenix, ficamos quase uma semana juntos lá. Ele estava afim de fazer as 500 Milhas e saiu surpreso, gostou muito do carro. Naquela época, a Indy era muito parecida com a Fórmula 1, só que era mais pesada e tinha mais cavalo. Se você olhasse a parte mecânica e o design no carro, aquela foi a época mais parecida com F-1. O Roger (Penske, chefe da equipe) não o deixou andar no oval. Ficou preocupado. Ele achou que o Ayrton ia querer andar muito rápido e, por não ter experiência em ovais, teria chance de bater.

Segundo Emerson, Senna tinha o sonho de disputar as 500 Milhas de Indianápolis, uma das mais tradicionais provas do automobilismo mundial. Depois daquele teste, o veterano já idealizava o grid da prova de 1993, com ele, Ayrton e Nigel Mansell juntos. Mas logo Senna se acertou com a McLaren e seguiu seu caminho na Fórmula 1.

- Ele pressionou a McLaren com isso, com certeza. Mas ele queria fazer as 500 Milhas. O Roger já tinha aceitado fazer um terceiro carro da equipe para ele. E foi o ano que o Nigel veio para a Indy. Seria espetacular largar em um grid com Nigel e Ayrton nas 500 Milhas. Mas ele acertou um contrato novo com a McLaren que o proibiu de ele fazer Indianápolis.

O sonho das 500 Milhas não se concretizou, mas aquele teste ainda rendeu uma história divertida, que mais de 20 anos depois, Emerson se diverte ao contar:

- Quando eu estava testando, ele pegou o carrinho de golfe e ficou na curva 2. Eu passava com a roda a uma polegada do muro, muito rápido. Daqui a pouco eu só vejo uma cabecinha. Era o Ayrton que tinha posto a cabeça para o lado de fora do muro. Não tinha cerca naquela época. Eu parei e falei “Está louco, Ayrton?”. Ele respondeu: “Eu queria sentir o ar e a vibração do carro passando”.

Ayrton Senna e Gerhard Berger no GP da Alemanha de 1990: amizade e companheirsmo na McLaren (Foto: Getty Images)Gerhard Berger foi um dos melhores amigos de Ayrton Senna na Fórmula 1 (Foto: Getty Images)

Outra história famosa e divertida que Fittipaldi não quis confirmar aconteceu no fim daquele ano. Irritado com Frank Williams e Alain Prost pelo francês tê-lo vetado na Williams em 1993, Senna resolveu tomar um porre com os amigos em um pequeno restaurante em Portugal. Ao perceber que o amigo já estava ficando mal, Emerson decidiu leva-lo para o hotel. Quando já estavam na porta de saída, Ayrton ameaçou vomitar e Fittipaldi apressou-se para colocar a cabeça dele para o lado de fora. Foi então que entrou em ação outro grande amigo de Senna: Gerhard Berger, seu companheiro de equipe na época. O austríaco, conhecido pelas brincadeiras irreverentes, pôs a cabeça de Senna de volta para dentro do restaurante, fazendo o brasileiro sujar todo o hall de entrada.

Vai-se o amigo, ficam as lembranças. Um dos poucos que conheceu o Ayrton divertido, descontraído, muito diferente do Ayrton concentrado e determinado da F-1, Emerson faz questão de, vinte anos depois, manter o amigo vivo em sua memória:

- Eu gostava muito do Ayrton. Desde o começo.  Nossa relação era de muito de respeito um pelo outro. A gente conversava muito sempre que podia. Apesar de eu estar nos EUA, eu ia para a Europa assistir uns GPs e encontrava ele. Sempre saía uma turma de brasileiros para jantar. Sempre que eu podia, estava com ele. Quando ele vinha em Miami, ele me procurava. Corríamos a pé. Quando ele se abria, ele era muito divertido. Quando ele ficava entre poucas pessoas que ele conhecia bem, ele brincava muito. Ele deixava de ser tão sério e compenetrado. Ele era muito legal fora da pista – completou.

Semana #SennaSempre

Nesta semana em que se completam 20 anos do adeus a Ayrton Senna, o GloboEsporte.com apresenta matérias especiais em homenagem ao ídolo brasileiro, entrevistas exclusivas, além de cobertura "in loco" do "Ayrton Senna Tribute 1994/2014”, evento de quatro dias que será realizado em Ímola em memória ao tricampeão. Fique ligado e confira tudo em nossa página especial “Senna para Sempre”.

Cartaz de divulgação do evento Ayrton Senna Tribute em Ímola (Foto: Divulgação)Cartaz de divulgação do evento Ayrton Senna Tribute em Ímola 
 

 

 

 

 

 


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