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Esporte


Fotógrafo e amigo, Sutton evoca o jovem Senna: Ótimas recordações
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Eles eram dois jovens cheios de sonhos quando se viram pela primeira vez. Em um cenário, é bom ressaltar, bem menos glamoroso que o das corridas de Fórmula 1: a segunda prova da temporada 1981 da Fórmula Ford Britânica, no acanhado autódromo de Thruxton, na Inglaterra. Foi ali que os destinos de Ayrton da Silva, 20 anos, e Keith Sutton, 21, se cruzaram para sempre. O primeiro, um kartista de boa reputação, enfrentando o frio europeu e a saudade da família para disputar o primeiro campeonato pilotando carros em sua carreira; o segundo, aspirante a fotógrafo profissional de automobilismo, dando seus primeiros cliques como contratado de uma revista. Mais de três décadas depois daquele encontro, Keith lembra com carinho do esforço de Ayrton - que ainda não usava o sobrenome Senna naquela época - para contratá-lo.   

- Eu não sabia, mas ele estava fazendo a segunda corrida de carro de sua vida. Eu trabalhava para uma revista que queria fotos de novos talentos que corriam na Europa. E o segui durante o dia todo, tirando muitas fotos, e ele foi o terceiro colocado naquele dia. No fim de semana seguinte, em Brands Hatch, quando eu andava pelo paddock, Ayrton me abordou naquele inglês terrível perguntando pelas fotos da corrida anterior, pois precisava divulgar sua carreira para a imprensa brasileira. Eu topei na hora, era só meu segundo ano como profissional! Naquele dia acertamos o preço e ele venceu sua primeira prova - conta Keith.  

Keith Sutton e Ayrton Senna no início dos anos 1980: amigos unidos pelo automobilismo  (Foto: Keith Sutton / Sutton Images)Keith Sutton e Ayrton Senna no início dos anos 1980: amigos unidos pelo automobilismo

 

A aliança entre o piloto e o fotógrafo deu muito resultado. Bastou uma década para o Silva virar Senna, se tornando tricampeão mundial de Fórmula 1; ao passo que Sutton, àquela altura, já deixara de ser apenas um sobrenome para virar sinônimo da maior agência de imagens do esporte a motor no mundo. Na elite do automobilismo, cada um seguiu o seu caminho. Mas sem deixar para trás uma amizade que marcou a vida de ambos rumo ao desejado circo da principal categoria do planeta. Keith foi, inclusive, confidente do dilema do brasileiro, que chegou a abandonar temporariamente as pistas no fim daquela temporada de F-Ford 1600 - à qual se sagrou campeão, não custa lembrar. Foram meses de angústia e pressão da família, até que o piloto voltou à Inglaterra disposto a continuar sua jornada rumo à F-1.   

- Mesmo vencendo corridas, ele não teve o retorno que imaginava, pois justamente naquele ano o Nelson Piquet conquistou o título na Fórmula 1 com a Brabham. Ayrton e a esposa Lilian não estavam se dando bem com o frio da Inglaterra, e então ele me disse em outubro: “Vou voltar para o Brasil, é o fim da minha carreira, pois não estou encontrando patrocinadores e não quero meus pais bancando isso”. Fiquei chocado, não sabia como ajudá-lo. Nesta época, ele me escreveu cartas adoráveis, me agradecendo por todo o apoio e ajuda. Até que, em fevereiro de 1982, ele voltou com o patrocínio de um banco brasileiro e fez um teste na F-Ford 2000. Perguntei o que ele havia decidido e ele me disse: “Quero ser um piloto de Fórmula 1”. Eu respondi: “Ótimo, porque eu quero ser um fotógrafo de Fórmula 1!”. Talvez tenhamos nos impulsionado mutuamente.

Capa do livro sobre Ayrton Senna tem foto de comemoração da vitória no GP da Bélgica de 1991 (Foto: Keith Sutton / Sutton Images)Capa do livro sobre Senna tem foto de comemoração da vitória no GP da Bélgica de 1991 (Foto: Keith Sutton / Sutton Images)

 

 

A relação ficou tão próxima nestes anos pré-Fórmula 1 que Sutton chegou a ser uma espécie de assessor de imprensa do brasileiro. Nesta fase, surgiu a primeira marca do piloto. Ele desenvolveu com o fotógrafo um papel timbrado com o desenho de seu capacete e as cores do Brasil. O material que relatava suas vitórias era postado com o endereço dos pais de Keith e tinha destino certo: todos os times de Fórmula 1 e as principais revistas de automobilismo do mundo. A primeira grande entrevista saiu do gravador de Keith para as páginas da Autosprint. Na decisão do título daquela temporada, na Dinamarca, a dupla dividiu um quarto de hotel. Após Ayrton ser campeão novamente, o jantar de comemoração - regado a alguns bons drinks - ficou na memória de Sutton como o momento mais especial que viveu ao lado de Senna fora das pistas.   

- Ele era um piloto rápido, mas ao mesmo tempo era um sujeito extremamente atento aos detalhes, em todos os aspectos de sua vida. O que incluía meu trabalho, claro. Isso era o mais impressionante de sua personalidade - recorda Sutton.

Algumas das fotos de Ayrton Senna que fizeram parte da exposição "Senna by Sutton", em Londres (Foto: Reprodução / Proud Galleries)Algumas fotos de Ayrton que fizeram parte da exposição "Senna by Sutton", em Londres 

 

 

Em 1983, quando Senna já estava perto de faturar o título da Fórmula 3 Britânica, o fotógrafo também foi testemunha de um marco na carreira do brasileiro: sua primeira vez em um carro de Fórmula 1, com um modelo da Williams. Além dele, o teste foi registrado apenas pela câmera da TV Globo, sob a batuta do então repórter Reginaldo Leme. Sutton também esteve presente nas sessões de testes com as equipes McLaren e Brabham, que também avaliaram o brasileiro. Quando enfim chegou a hora de ingressar na categoria, correndo pela modesta Toleman em 1984, Ayrton convidou Keith para ser seu fotógrafo também nesta fase de sua carreira. Foi quando Sutton se viu diante daquela que ele considerou a mais difícil decisão que já tomou.   

- O problema é que eu deveria ser um empregado da família Senna, mas eu queria mesmo era ter minha agência. Então disse não a ele! Não era algo muito comum (risos). Mas pensei em minha carreira, no futuro. No fim das contas, Ayrton compreendeu minha decisão, mas disse que queria me ver em seu primeiro GP, no Rio de Janeiro, em 1984. E pagou todas as despesas, incluindo um belo hotel na Praia de Copacabana. Foi uma experiência incrível, minha primeira vez no Brasil. Naquele momento, ele estava iniciando na F-1, multiplicando tudo por milhões. Eu também estava construindo minha carreira na categoria, mas minha conta era em milhares. Ele já morava em Mônaco, voava num jato particular por todo o mundo, e a coisa não funcionava assim tão depressa no meu caso. Mas eu tive sorte. Comecei cedo, assim como o Ayrton, e ele ajudou minha carreira a deslanchar. Assim nasceu a Sutton Images, que hoje tem o maior acervo do mundo no esporte a motor. 

Foto rara de Keith Sutton com Ayrton Senna ao lado da ex-mulher, Lilian de Vasconcellos (Foto: Keith Sutton / Sutton Images)Foto rara do acervo de Sutton, com Senna ao lado da ex-mulher, Lilian de Vasconcellos 

 

 

Mesmo não estando mais ligado profissionalmente ao piloto, Keith - que acredita que Senna se tornaria um político para ajudar os brasileiros mais necessitados quando parasse de correr - seguiu registrando todos os momentos importantes de Ayrton até a sua morte, em 1994. Como forma de homenagem ao velho amigo, Sutton lançou algum tempo depois um livro com imagens marcantes da carreira do tricampeão em diversas fases, chamado “Um Tributo Pessoal”, que também foi publicado no Brasil. Em 2014, o fotógrafo aproveitou a série de celebrações em respeito aos 20 anos sem Senna para lançar um novo livro, em edição especial, também cobrindo todas as temporadas do brasileiro no automobilismo. Entre as duas obras, há uma coisa em comum: a foto escolhida para ilustrar a capa, tirada na comemoração da vitória no GP da Bélgica de 1991.   

- Quando cobrem corridas, todos os fotógrafos fazem aquelas fotos óbvias de pódios. Em Spa, vi que a sala de imprensa dava para a lateral do pódio, e quando abri a janela pude ver Ayrton de cima. E fiz aquela foto maravilhosa, que foi publicada em revistas de todo o mundo e me traz ótimas recordações: ele jogando champanhe em mim, com flores, muita luz e nada no fundo. Uma foto limpa e repleta de emoção - descreve Sutton.


 

 

 

 

 


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