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Esporte


Fabi dá adeus à seleção: A sensação é de que a missão está cumprida
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De uns tempos para cá, um pensamento recorrente tomou conta de Fabi. O "claro que sim" virou "não sei". A disputa dos Jogos do Rio, em 2016, começou a parecer mais distante. Vestir pela última vez a camisa da seleção, jogando no quintal de casa, diante dos olhos da família e dos amigos, era tudo o que ela queria. Mas a caminhada acabou sendo abreviada. Nesta sexta-feira, no CT de Saquarema, a bicampeã olímpica comunicou que daqui em diante será apenas mais uma torcedora do time que ajudou a transformar em potência.

Depois de assistir a um trecho do treino e de receber inúmeros abraços, tomou o rumo do auditório para dizer o que nem as jogadoras, nem o comandante queriam ouvir. Ladeada por eles, disse que não choraria. Mas a emoção tomou conta quando o José Roberto Guimarães teve a palavra. O silêncio falava alto no fim do anúncio e só foi quebrado pelas palmas que vieram em seguida.

- Foi uma decisão muito difícil, só eu sei o quanto pesei. Eu vinha amadurecendo há algum tempo essa ideia. Um casamento no qual você tem dois filhos (duas medalhas olímpicas), não pode terminar assim. Você pensa, analisa os fatos, vê se você contribuiu nessa relação, se você deu o seu melhor.  No ano passado, eu ainda não estava muito madura para tomar essa decisão. Em 20 minutos, o Zé me convenceu de que eu estava equivocada. Essa é uma decisão íntima, não tenho como dizer se é certa ou errada. Mas sabia que esse dia iria acontecer. Para um atleta é muito difícil saber a hora e o dia de parar. Mas a sensação é de que a missão está cumprida - afirmou.

Fabi Olimpíadas de Londres (Foto: Getty Images)Fabi em ação pela seleção brasileira nas Olimpíadas de Londres 2012 (Foto: Getty Images)

Aos 34 anos, a melhor líbero do mundo seguirá apenas atuando pelo Rio de Janeiro. Decidiu que é hora de passar o bastão para as mãos de Camila Brait. Chegou a pensar seriamente nisso pouco antes das Olimpíadas de Londres. Embora estivesse mostrando a mesma entrega e desempenho, achava que o corpo tratava de lembrar que não era o mesmo de quando tinha 25. Desde então, se viu mergulhada na nostalgia. Passou a aproveitar e registrar todos os momentos.

- É uma pena a Brait não estar aqui hoje. Está de folga. Eu queria muito dar um abraço nela. Tivemos cinco anos de convivência aqui e ela está sendo o motivo de eu me sentir tranquila. Confio muito nela, está bem preparada. E tem a Léia chegando, o que para mim é motivo de orgulho também. A seleção está em boas mãos. O que posso fazer agora é desejar sorte a todas as meninas. É uma missão difícil representar Brasil, ainda mais nas Olimpíadas no seu país. Confio nelas. Apesar de não estar no dia a dia, não vou conseguir me desligar delas. As medalhas ficam largadas em casa, mas as fotos estão aqui para lembrar. O mais difícil vai ser a convivência. Elas vão ter menos uma palhaça para dar risadas - brincou.

Desde o ano passado, Fabi começou a dividir treinos com estudo - faculdade de Administração a distância e inglês - já pensando na  próxima fase. Quer estar bem preparada para ela. 

- Comecei a buscar informações sobre o momento de parar. E quando pensei nisso, veio essa sensação de querer outros desafios, de pensar no que vem depois. Quero investir, terminar a faculdade no máximo em três anos e aproveitar as oportunidades. Vou ter mais tempo livre. Aqui (na seleção) você tem que se entregar de corpo e alma. E eu não vou parar de jogar vôlei. Estou só saindo da seleção e tentando fazer disso a coisa mais tranquila possível. 

Virar uma página tão importante de sua vida, deixando para trás a seleção, nunca foi algo fácil para Fabi. Precisou ouvir outros grandes nomes, das quadras e até dos gramados, que já haviam passado por situação semelhante para começar a conviver melhor com a ideia.  Sempre quis defender aquelas cores, ganhar aqueles títulos. E precisou de muito empenho para chegar a ser a dona daquela posição.

Fabi não consegue segurar a emoção em despedida da Seleção Brasileira (Foto: Divulgação)Fabi não consegue segurar a emoção em despedida da Seleção Brasileira (Foto: Divulgação)

 

Primeiro teve de convencer os vizinhos bons de bola de seu condomínio em Irajá de que apesar de pequena e magrinha tinha habilidade suficiente para ganhar um lugar no time. Na primeira chance que apareceu, se jogou sem medo de se machucar, para efetuar defesas. Não fugia das "pancadas" e deixou de ser "café com leite" aos olhos da turma. Passou a gostar ainda mais de vôlei por causa da Geração de Ouro de 92.

Motivada por aquela inédita medalha olímpica dourada, virou a craque do time do colégio e só depois de ganhar um Intercolegial fez a mãe entender que não teria mais como insistir em tirar o vôlei do seu caminho. Tinha a certeza de que dona Vera, que sonhava com uma carreira mais convencional para a filha, ainda a veria dando muita entrevista na televisão. As portas se abriram no Flamengo. A rotina da então atacante para ir e voltar da Gávea consumia boas horas do dia, paciência e investimento dos pais, um motorista de táxi e uma manicure. 

Fabiana, Fabi, Sheilla, Dani Lins e Natália Brasil ouro vôlei Jogos de Londres (Foto: Ivan Alvarado/Reuters)Fabiana, Fabi, Sheilla, Dani Lins e Natália com a medalha de ouro no pódio em Londres (Foto: Ivan Alvarado/Reuters)

Depois de defender o Rubro-Negro foi jogar em Macaé. Fez o caminho de volta para o Flamengo até ser chamada por Isabel para o Vasco, onde foi campeã estadual em 2000. Aceitou em seguida a proposta para se mudar e jogar pelo Campos, comandado por Luizomar de Moura. Em 2001, veio a tão sonhada oportunidade na seleção de Marco Aurélio Motta. A partir de 2005, já com Zé Roberto, foi evoluindo, ganhando espaço, até conquistar a confiança do chefe. A coleção de títulos, defendendo o Brasil e também o Rio de Janeiro nas competições de clubes, ia aumentando. 

Fabi foi se transformando numa referência de garra e liderança para as companheiras e de grande defensora para o resto do mundo. O álbum não parava de ganhar novas fotos com objetos dourados pendurados no pescoço. A casa foi abrigando novas relíquias. As camisas de várias fases de sua carreira e também as de grandes nomes do vôlei que garimpou; as bolas oficiais dos Jogos de Pequim 2008 e Londres 2012, que demandaram muito trabalho e papo para serem conseguidas; um retalho de 15cm "do piso sagrado" do bicampeonato e, claro, as duas reluzentes medalhas olímpicas. 

Fabi e José Roberto Guimarães conversam fora da quadra: adeus foi muito pensado (Foto: Divulgação)Fabi e José Roberto Guimarães conversam fora da quadra: adeus foi muito pensado (Foto: Divulgação)



Os itens mais recentes de seu minimuseu vão ser os registros fotográficos de seus últimos instantes com as jogadoras e comissão técnica no CT de Saquarema. E esses, ninguém vai precisar pedir depois àquela que ria ao se definir como "o baú da seleção". Todas fizeram questão de fazer os cliques e guardar a recordação em bom lugar. 

- Quando a gente tentou conversar, ela estava muito decidida. As jogadoras, assim como eu, tentamos demovê-la da ideia de sair. A gente ficava com aquela esperança, porque a história dela de vida se mistura um pouco com a da seleção: vinda de dificuldades e de uma série de coisas que teve de superar, exatamente como nós. Fabi marcou uma história muito bonita de empenho, dedicação e superação. E essa convocação faz parte do significado que ela tem para a seleção. Não poderíamos deixar passar, de maneira nenhuma, em branco. Ela dando esclarecimentos perante o grupo que ajudou tanto. Mas enfim, são escolhas de vida e temos que respeitar. O importante é o legado que Fabi deixa de determinação e o exemplo. A gente só tem a agradecer todos os momentos que teve conosco. Ela é muito querida e vai fazer falta - disse Zé Roberto, sem conter a emoção.

Fabi com as jogadoras da seleção brasileira em Saquarema (Foto: Divulgação)Fabi brinca com as agora ex-companheiras de seleção brasileira após anunciar sua despedida (Foto: Divulgação)



Ao seu lado, a líbero ouvia ao depoimento, agora com a cabeça baixa, tentando segurar as lágrimas. O técnico esperava contar com ela nos dois grandes objetivos da equipe: no Mundial da Itália, em setembro, e nos Jogos do Rio em 2016. 

- Eu sabia que ela pensava nisso, mas não esperava que fosse agora. Achava que jogar as Olimpíadas na cidade dela, o fato de ter um Mundial perto e o título que ainda não tem, poderiam fazer com que ficasse. Perdê-la me preocupa muito. Em  dez anos de convivência eu nunca vi essa menina devagar num treino ou não estando completamente focada na seleção e seus objetivos. Sempre foi um parâmetro importante para o grupo. Ela se tornou uma grande vencedora por todo o processo que passou na vida e também na seleção. Vai deixar saudade. É difícil quando existe um desligamento. Mas elas estão conscientes de que precisam continuar. É um momento difícil, mas vai servir de superação. Temos uma responsabilidade grande pela frente. Vida que segue.

Bicampeãs olímpicas como Fabi, a oposta Sheilla e a central Fabiana não escondiam a tristeza. Tiveram um discurso alinhado. Só queriam poder desejar que daqui para frente tudo caminhe bem. E que a nova página que a ex-companheira quer começar a escrever seja de sucesso.

- Ela já conversava sobre isso com a gente há algum tempo. Mas não esperávamos que fosse acontecer esse ano. Sei que foi uma decisão difícil porque a seleção é um sonho para todas. Posso falar por mim e Fabiana, que estamos aqui há muito tempo. Então, nesse momento, a única coisa que podemos fazer é respeitar, apoiar e desejar boa sorte na vida dela - disse Sheilla.
 
Silêncio, sorrisos, aplausos e mais abraços. Foi assim que a dona da camisa 14 saiu de cena.

Sheilla aplaude Fabi na despedida da amiga da Seleção Brasileira (Foto: Divulgação)Sheilla aplaude Fabi na despedida da amiga da Seleção Brasileira (Foto: Divulgação)

 

PRINCIPAIS CONQUISTAS PELA SELEÇÃO

Jogos Olímpicos: ouro em Pequim 2008 e Londres 2012
Mundial: prata na edições de 2006 e 2010, ambas no Japão
Grand Prix: ouro em 2005, 2006, 2008, 2009 e 2013; prata em 2010
Copa dos Campeões: ouro em 2005 e 2013; prata em 2009
Jogos Pan-Americanos: ouro em Guadalajara 2011 e prata no Rio 2007
Sul-Americano: ouro em 2003, 2005, 2007, 2009, 2011 e 2013
Torneio de Montreux: ouro em 2005, 2006 e 2009
No total foram 313 jogos, 275 vitórias e 38 derrotas. Ficou fora da seleção apenas em 2004

PRÊMIOS INDIVIDUAIS PELA SELEÇÃO

Melhor líbero do Grand Prix (2002)
Melhor líbero do Sul-Americano (2003 e 2007)
MVP do Sul-Americano (2009)
Melhor líbero das Olimpíadas (Pequim 2008)
Melhor líbero e melhor defesa do Torneio Final Four (2008)
Melhor líbero do Torneio de Montreux (2009)
Melhor recepção da Copa do Mundo (2011)

 

Fonte: http://globoesporte.globo.com/volei/noticia/2014/06/fabi-da-adeus-selecao-brasileira.html

 
 

 

 

 

 

 


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