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Esporte


Brasil na cabeça e nas mãos: Senna elevou a autoestima de uma nação
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Nesta quinta-feira, o Brasil lembra os 20 anos do adeus de um dos maiores ídolos de sua história. Em 1º de maio de 1994, durante o fatídico GP de San Marino, no circuito italiano de Ímola, Ayrton Senna se despediu de forma prematura de seus milhões de fãs e compatriotas ao bater contra o muro da curva Tamburello. Duas décadas depois, o legado do tricampeão mundial permanece forte na memória dos brasileiros. E o GloboEsporte.com apresenta uma série de reportagens especiais para relembrar o herói de toda uma geração. A primeira delas mostra a intensa relação de amor do piloto com seu país. 

Em 1984, Ayrton surpreendeu o mundo ao ignorar as limitações de sua Toleman e conquistar um inesperado segundo lugar no GP de Mônaco. Àquela época, os brasileiros já se entusiasmavam com os feitos de seus compatriotas na Fórmula 1, como o bicampeonato de Emerson Fittipaldi, em 1972 e 1974, e os dois primeiros títulos de Nelson Piquet, em 1981 e 1983. As façanhas de Senna, no entanto, intensificaram a adesão popular ao esporte e contribuíram para aumentar a empolgação com as corridas da principal categoria do automobilismo, então uma das poucas fontes de alegria para um país que ainda lutava para sair da sombra da ditadura militar.  

Diante de um contexto de incertezas políticas e instabilidade econômica, as vitórias que Senna começou a acumular a partir de 1985 o transformaram em uma espécie de “válvula de escape" para o povo brasileiro. O cenário esportivo, principalmente em relação ao futebol, também passava por uma fase de poucas glórias. Os feitos do jovem piloto paulista serviram, então, de compensação para aliviar o longo jejum de títulos da Seleção, que não ganhava uma Copa do Mundo desde o histórico tricampeonato no México, em 1970. O carisma singular de Ayrton foi o ingrediente definitivo para transformá-lo no grande herói nacional daquele período.

- Em termos esportivos, o futebol ainda era o esporte nacional, uma vez que na época tínhamos poucas ações efetivas de consolidação de um desenvolvimento poliesportivo. A Fórmula 1, por sua vez, ganhou amplo destaque a partir da figura carismática de Ayrton Senna. Fittipaldi pode ter tido sua brilhante trajetória de bicampeão ou Piquet pode ter sido igualmente tricampeão mundial se comparado a Senna; porém, nenhum deles mobilizou tantos afetos quando esse último. Senna era um mobilizador de afetos por onde passava e se construía dessa forma como pessoa e como piloto - opina Wagner Xavier de Camargo, antropólogo do Esporte e atual Pesquisador Júnior da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo).

Mosaico Senna Brasil (Foto: Montagem sobre foto da Getty Images)(Fotos: Montagem sobre fotos da Agência Getty Images)

 



Brasil na cabeça e nas mãos  

Senna soube retribuir a admiração de seus compatriotas e, de forma espontânea, incorporou demonstrações de amor pelo país durante suas apresentações nas pistas de todo o mundo. Além do icônico capacete pintado nas cores verde e amarela, o piloto eternizou o ato de erguer a bandeira do Brasil. E o gesto que acabou cativando a torcida brasileira foi originado de uma mera provocação futebolística. A Seleção havia sido eliminada nas quartas de final da Copa do México, em 1986, com a derrota nos pênaltis para a França. No dia seguinte, Ayrton desbancou os franceses Jacques Laffite e Alain Prost e triunfou no GP de Detroit. Depois de sofrer com piadinhas dos integrantes franceses da Lotus, sua equipe na época, ele chegou próximo ao alambrado, pediu a bandeira que um torcedor portava e tremulou o pano para mostrar o orgulho de ser brasileiro.

A partir de então, cada vitória de Senna se tornou uma espécie de exaltação da identidade nacional, contribuindo para elevar a autoestima de uma população que recebia pouco destaque no exterior. A trajetória repleta de desafios e superações do piloto passou também a refletir as batalhas sociais e políticas que estavam sendo travadas dentro do país, palco de uma grande mobilização pela consolidação das instituições democráticas. Ayrton começou a carreira como um jovem franzino e de aparência delicada. Obstinado, dedicou-se a um rigoroso programa de evolução física e mental, até se tornar o adversário mais competitivo do grid. Justamente o exemplo que o Brasil precisava para reafirmar o valor de seu povo. 

- A história de ascensão de um jovem e talentoso piloto culminou com um período de transformações sociais e políticas também de seu jovem e grandioso país. A história de vida de Senna era cheia de percalços, assim como era cheia de obstáculos a história do Brasil naquele momento. Senna estava para o Brasil assim como o Brasil estava para Senna, numa reciprocidade absolutamente consonante. Ser um atleta brasileiro competente e genial no cenário internacional, num momento em que o país era apenas conhecido pelo exotismo (futebol, floresta amazônica, carnaval e mulatas), tornava-se algo diferencial e colocava, evidentemente, a nação e sociedade brasileiras em destaque - argumenta Wagner Xavier de Camargo.

Ayrton Senna e Brasil: combinação que inspirou toda uma geração (Foto: Norio Koike / ASE)Ayrton Senna e Brasil: combinação que inspirou toda uma geração (Foto: Norio Koike / ASE)

 



Piloto 'recarregava baterias' no Brasil

Mais do que bater recordes e alcançar vitórias espetaculares na Fórmula 1, Senna fazia questão de destacar o orgulho de representar sua nação. Como é de praxe entre os pilotos da categoria, ele fixou residência na Europa e passava a maior parte do ano se revezando entre os países que compunham o calendário da competição. Mas o paulista não perdia uma oportunidade de visitar a família e os amigos do Brasil, onde aproveitava para "recarregar as baterias". Suas passagens pela casa de praia em Angra dos Reis, no litoral do Rio de Janeiro, ou pela fazenda em Tatuí, no interior de São Paulo, despertavam uma grande curiosidade na mídia nacional, e mostravam que o vínculo de Ayrton com o país continuava forte, apesar da distância imposta pela carreira no automobilismo mundial. 

Atento à realidade brasileira daquela época, Senna também manifestou o interesse em contribuir para suavizar as desigualdades econômicas e sociais que marcavam o país. O piloto, consciente da responsabilidade de seu papel como ídolo nacional e “embaixador" do Brasil, começou a rascunhar a ideia de organizar projetos que seriam tocados com parte do dinheiro recebido no milionário universo da Fórmula 1. Entretanto, o sonho de ajudar a população brasileira, de forma mais enfática e direta, acabou sendo interrompido pelo acidente fatal no trágico GP de San Marino de 1994.

Para Viviane Senna, valores deixados por Ayrton serviram de exemplo positivo para os brasileiros (Foto: Getty Images)Para Viviane Senna, valores deixados por Ayrton serviram de exemplo para os brasileiros (Getty)

A estreita relação com os fãs e admiradores do Brasil explica a comoção gerada após aquele fatídico domingo na Itália. A despedida a Senna desencadeou uma mobilização de extensão poucas vezes vista na história do esporte mundial. Além de políticos e personalidades importantes, o adeus ao piloto foi acompanhado de perto por uma multidão visivelmente abalada pela perda repentina de seu maior representante no cenário internacional. Entretanto, os planos do tricampeão de Fórmula 1 tiveram continuidade, perpetuando seu legado social com a criação do Instituto Ayrton Senna, em novembro de 1994. 

- Ayrton deixou tantos valores... Ser uma pessoa vitoriosa em uma época que o Brasil causava vergonha, levando um país que era de terceiro mundo a competir e vencer no primeiro mundo, no meio da mais alta tecnologia. E não venceu pelo jeitinho, pela trapaça, mas sim pela garra, determinação, competência, arrojo. São valores que são eternos, esse é o legado de Ayrton - afirma Viviane Senna, irmã do piloto e presidente da entidade que leva seu nome.

Desde sua criação, o Instituto Ayrton Senna atua no desenvolvimento de crianças e jovens por meio de programas que aliam o esporte e a educação. Com os resultados expressivos conquistados pelo projeto ao longo de quase duas décadas, o sonho de desenvolver o potencial dos brasileiros e colocar o país em evidência por meio dos talentos e da capacidade de seu povo se mantém vivo e associado às conquistas de Ayrton na Fórmula 1. Nem mesmo a trágica morte impediu Senna de ajudar a melhorar a vida de mais de dois milhões de estudantes, em 1.300 municípios espalhados pelo Brasil.

Ayrton Senna se diverte com o sobrinho Bruno em Angra dos Reis (RJ) (Foto: Acervo Pessoal)Ayrton Senna se diverte com o sobrinho Bruno em Angra dos Reis (RJ) (Foto: Acervo Pessoal)

 

 

Semana #SennaSempre

Nesta semana em que completam-se 20 anos do adeus a Ayrton Senna, o GloboEsporte.com apresenta matérias especiais em homenagem ao ídolo brasileiro, entrevistas exclusivas, além de cobertura "in loco" do "Ayrton Senna Triubute 1994/2014”, evento de quatro dias que será realizado em Ímola em memória ao tricampeão. Fique ligado e confira tudo em nossa página especial “Senna para Sempre”.

Cartaz de divulgação do evento Ayrton Senna Tribute em Ímola (Foto: Divulgação)Cartaz de divulgação do 'Ayrton Senna Tribute', que terá cobertura 'in loco' do GloboEsporte.com 
 

 

 

 

 

 


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