Com apenas 18 anos, Felipe Fraga surpreendeu o país ao vencer a 1ª etapa da temporada 2014 da Stock Car logo em sua prova de estreia, no último domingo, em Interlagos, em dupla com o Rodrigo Sperafico. Isso em uma corrida que contava com campeões da categoria, como Cacá Bueno e Chico Serra, além de vários ex-pilotos de F-1, como Rubens Barrichello, Nelsinho Piquet e Bruno Senna. Foi o primeiro e vitorioso capítulo da nova fase da carreira do representante de Tocantins, que voltou ao país para correr de Turismo após não ter conseguido se firmar na Europa por questões financeiras. Apontando como uma das maiores promessas do automobilismo brasileiro, Fraga revela que ainda alimenta o sonho de chegar à F-1. Por outro lado, o jovem competidor da equipe Vogel ressaltou o privilégio de disputar a principal categoria nacional e não descartou uma longa carreira na Stock:
- Em 2012 eu fiz a Fórmula Renault Alps completa (terminou em nono) e quatro etapas do campeonato europeu, conseguindo dois pódios. Mas não consegui me manter lá e optei por voltar ao Brasil. Mas não mudei o foco. Meu sonho continua sendo a Fórmula 1. Não desisti ainda. Tenho 18 anos apenas. Muita coisa pode acontecer. Ainda tenho tempo. Depende de como for esse ano, a mídia que der... Acho que ainda tenho alguma chance. Mas não fico pensando muito. Estou focado 100% mesmo na Stock Car, que é uma ótima categoria. E estar na Stock com só 18 anos é uma vitória para mim. Se pintar uma oportunidade válida, estarei pronto para agarrá-la, mas se for uma oportunidade mais ou menos não deixarei a Stock Car para ir para a Europa.
Para justificar sua estratégia, Fraga citou exemplos de pilotos que foram para a Fórmula 1 depois de correrem em campeonatos de turismo. Lá fora, recentemente, Paul di Resta foi campeão do DTM (campeonato alemão de turismo) antes de ir para a Force India. Aqui no Brasil, Raul Boesel competiu na Stock Car para depois seguir na F-1. Fraga também agradeceu ao pentacampeão Cacá Bueno, que chama carinhosamente de “padrinho”. Foi o pentacampeão que o orientou a disputar o Brasileiro de Turismo em 2013, onde foi campeão, de olho em uma vaga na Stock Car.
- O Cacá é meu “padrinho”. Ele é o “culpado” disso tudo. Ele me ajudou muito nessa escolha, segue me ajudando muito, está apoiando minha carreira, me ajudando a conseguir patrocínio. Devo muito a ele.
'Quero é ser profissional fazendo o que amo'
Mostrando grande sobriedade para um garoto de apenas 18 anos, Fraga tem plena consciência de seus desejos na carreira. Tem a F-1 como sonho, mas não quer se prender a “sonhos”, e sim se consolidar como profissional no esporte a motor. Por isso, caso não alcance o “sonho da F-1”, contou que pretende fazer carreira na Stock Car.
- Se a F-1 não der certo, minha preferência é a Stock Car. Está ótimo correr pelo resto da minha vida na Stock Car e fazer provas em outras categorias de turismo na Europa, nos EUA. Sou muito tranquilo quanto a isso. Penso muito mais em profissionalismo do que sonho. Tanto que voltei para o turismo. Não adianta ficar sonhando, sonhando, sonhando. Eu quero é ser profissional fazendo o que eu amo, que é correr – explicou.
E por falar em sonho, Fraga admitiu que, antes de domingo, em nenhum momento passou pela cabeça que poderia vencer em sua estreia na Stock Car.
- Para falar a verdade, nem em sonho eu pensava. Sempre soube que era muito difícil acontecer. Mas nunca duvidei do meu potencial, do da equipe e do Sperafico, minha dupla. Nos treinos, a gente mostrou que era rápido. Na hora da tomada de tempo, consegui encaixar uma volta e fui sexto lugar. E aí o Rodrigo fez uma volta boa e a gente perdeu a pole por um milésimo. Largar em segundo já estava ótimo. Chegar entre os dez já era lucro. Só que antes, tinha tido um treino na chuva em que andei supermal, estava meio perdido, nervoso. Aí na largada, quando começou a chover, eu pensei “Meu Deus do céu. Agora ferrou de vez”. Aí começou a prova, eu segui o Cacá no início, consegui pôr mais velocidade, porque o carro estava muito bom e fui em frente - explicou o jovem piloto, que chegou a conversar com Antonio Félix da Costa (DTM e escola de pilotos da RBR), Ricardo Sperafico e Lico Kaesemodel.
Em razão do excesso de cautela na largada, Fraga perdeu algumas posições nas primeiras curvas. Mas quando Cacá entrou nos boxes, o piloto da Vogel entregou o carro nas mãos de Rodrigo Sperafico na ponta. Dali em diante, o paranaense de 34 anos, que competiu na Stock até ano passado, manteve um forte ritmo. Nas últimas voltas, Fraga viveu uma situação totalmente inédita devido às particularidades da corrida de duplas. Assistiu sua vitória do lado de fora da pista. O jovem representante de Tocantins tentou descrever a sensação:
- Foi difícil demais. Fiz minha parte, larguei de segundo, não fui bem na largada, mas consegui recuperar, entreguei o carro em primeiro para o Rodrigo. E depois foi estranho demais. Meu carro passava na reta e não era eu pilotando dele. Mas eu confiava muito no Rodrigo, tanto que escolhi ele para ser minha dupla. Mas fiquei num nervosismo que nunca senti na minha vida. Foram alguns minutos, mas parecia que tinha demorado um dia. Quando ele cruzou, saiu um peso das costas. Todos que conhecem sabem que não é nada fácil o automobilismo, patrocínio. Foi uma superação.
Apesar de vitória, jovem adota cautela
Mesmo com o triunfo, o piloto da Vogel adota o discurso cauteloso ao falar sobre chances de título:
- Não é impossível. Mas não fico pensando em título ainda não. Foi só uma corrida, ainda tem muita coisa pela frente. Tenho que ser cauteloso, correndo corrida por corrida, tentando pontuar muito. Acho que tem chance, mas é difícil. Ainda vou sofrer muito com experiência, com corridas mais longas, com desgaste de pneus. Ainda tem muito arroz e feijão para comer pela frente.
Mais jovem da história a vencer na Stock Car (bateu o recorde de Thiago Camilo), Fraga contou que a ficha ainda não caiu e ressaltou o carinho que recebeu, principalmente dos seus conterrâneos do Tocantins:
- A cada dia que passa a ficha cai mais um pouquinho, mas ainda não caiu por completo não. Mudou muita coisa já. Nunca recebi tanta mensagem na minha vida. Loucura mesmo. Ainda mais do pessoal do Tocantins. Aqui é pequeno. Muita gente já me conhecia, aí ainda passei em rede nacional... As pessoas me param na rua e dizem “Poxa, chorei com você. Aquela corrida foi emocionante”. O pessoal me apoia demais.
E oriundo de um estado com pouca tradição no automobilismo brasileiro, Fraga vê o fator de uma forma positiva.
- Vejo por um lado bom. Muitos falam que se eu fosse de São Paulo seria mais fácil e tal. Mas acredito que não. Em São Paulo eu seria apenas mais um piloto. Aqui eu tenho um apoio indescritível das pessoas e muito a agradecer ao governo do Estado, que se não fosse por eles eu não teria condições de correr nos últimos três ou quatro anos. É um privilégio.
