Ele tem apenas 1,78m, não figura entre os dez jogadores com mais assistências do NBB e tampouco aparece na lista dos 50 maiores pontuadores da competição. Mas e daí? Mesmo sem ocupar os primeiros lugares nas estatísticas, Gustavo Santos Pereira Lima, ou simplesmente Gustavinho, é o único brasileiro entre os quatro armadores titulares que disputam as semifinais e tem roubado a cena nos playoffs. E nem sempre com números discretos.
Na histórica vitória por 75 a 70 sobre Limeira, fora de casa, que levou o Mogi das Cruzes pela primeira vez às semifinais do campeonato, o armador de 28 anos anotou 20 pontos, deu quatro passes para cestas e foi decisivo nos minutos finais. Na quarta-feira, contra o Flamengo, o camisa 4 não pontuou tanto - foram apenas nove pontos -, mas com sete assistências e três bolas roubadas, ele ditou o ritmo do jogo e ajudou seu time a reverter o mando de quadra na série melhor de cinco das semifinais do NBB contra o atual campeão.
O momento não poderia ser mais especial. Tanto para ele quanto para a cidade do interior paulista. Nascido na capital de São Paulo e formado nas categorias de base do Pinheiros, Gustavinho foi parar em Mogi das Cruzes por falta de espaço na equipe que o projetou, após sofrer uma grave lesão no ligamento cruzado do joelho direito e ficar um ano longe das quadras.
- O momento é especial, sem dúvida. Não só para mim, mas para Mogi das Cruzes, que é uma cidade que respira basquete e que ficou muito tempo afastada das competições. O projeto voltou com uma força absurda, e a evolução da equipe é muito grande. Já estou lá há três temporadas e me sinto totalmente adaptado - afirmou o armador, que tem Marcelinho Huertas e o canadense Steve Nash como ídolos e os amigos Valtinho, do Uberlândia, Elinho, do Minas Tênis, e Fúlvio, do São José, como referências no país.
Com nove pontos e sete assistências, Gustavinho comandou a equipe de Mogi na vitória sobre o Flamengo Com os dois amigos eliminados e Fúlvio fora de combate desde o início da competição, recaiu sobre seus ombros a missão de representar o armador brasileiro nas semifinais do NBB. Isso porque Gustavinho é o único representante do país na sua posição entre os quatro titulares que disputam uma vaga na decisão. Enquanto no Flamengo o argentino Nicolas Laprovittola é quem dá as cartas, no Paulistano e no São José a responsabilidade de comandar suas equipes são do americano Kenny Dawkins e do dominicano Manny Quezada, respectivamente.
- Para mim é um orgulho e um privilégio muito grande ser o único brasileiro nestas semifinais. Amo jogar basquete e procuro priorizar a defesa e o jogo coletivo. Sempre admirei armadores como o Elinho, do Minas, o Valtinho, de Uberlândia e o Fúlvio, do São José, que têm como características ler o jogo e comandar suas equipes coletivamente. Sempre conversamos sobre basquete e acho que encaixo nesse perfil. Nunca me preocupei em marcar muitos pontos, eu queria a bola para mim. Mas como sempre fui o mais baixinho, tinha que defender forte e correr mais do que os grandões para tê-la nas mãos. Sou fominha mesmo, mas no bom sentido (risos) - brincou o armador.
TRÊS VEZES MVP NA BASE E GRATIDÃO A BIAL
Desconhecido do grande público, talvez pelo fato de o Mogi nunca ter chegado tão longe, Gustavinho está há anos na estrada. Do começo ainda criança no Med Sport, escolinha para jovens de 5 a 15 anos da Associação Atlética da Medicina da USP, até às semifinais do NBB com o surpreendente time paulista, o armador brilhou nas categorias de base do Pinheiros e teve sua primeira experiência como adulto em Joinville.
- Eu me destaquei na base do Pinheiros e ganhei três vezes o "Girafinha", prêmio dado ao melhor jogador de cada temporada. Meu primeiro time adulto foi o Joinville, que era treinado pelo Alberto Bial. Ele foi um cara que sempre acreditou em mim. Lembro que ele dispensou um americano que tinha lá e perguntou se eu aguentaria a barra. Eu disse na mesma hora que sim, e dei conta do recado. Tenha uma eterna gratidão pelo Bial, foi um técnico muito importante na minha carreira - lembrou Gustavinho.
Recordações à parte, a hora é de pensar no Flamengo. Apesar da vitória no Rio ter dado ao Mogi o direito de decidir a vaga em casa nas duas próximas partidas, Gustavinho pisa no freio, enterra a euforia e foca apenas no jogo três, no próximo sábado, às 20h30, no Ginásio Professor Hugo Ramos.
- Ganhar do Flamengo em qualquer lugar nunca é fácil. Conseguimos obter nossa meta que era fazer nosso jogo e baixar os números deles. Se repetirmos isso nos jogos em casa, temos grandes chances de avançar. Mas ainda é cedo para pensar na final. Sem demagogia, temos que pensar passo a passo, jogo a jogo. O Flamengo já esteve nessa mesma situação na série contra o Bauru e estamos atentos - alertou o camisa 4 do Mogi das Cruzes.