Apaixonada por Fórmula 1, ela liga a TV, religiosamente, todos os domingos pela manhã. A paixão pelas corridas começou ainda na década de 1970, com os feitos de Emerson Fittipaldi. Lembra sempre do francês François Cèvert, seu ídolo de adolescência. E há alguns anos, era aquele capacete amarelo que a deixava ligada nas corridas. Estamos falando do fim dos anos 80. Apesar de ter tido dois filhos nos últimos anos, não deixava a paixão de lado. E, despretensiosamente, começou a acordar cedo o mais velho deles para assistir às corridas ao seu lado, no sofá da sala. Mal sabia ela o que estava fazendo...
A musiquinha de abertura da transmissão de TV para o Brasil era quase como o despertador desses dois. Não dava para perder aqueles duelos memoráveis entre o piloto de capacete amarelo e seu companheiro, o francês bicampeão. Ayrton Senna e Alain Prost polarizavam aquela temporada de 1988. Trocavam vitórias. Quando um não ia ao alto do pódio, era o outro. Aquela McLaren vermelha e branca passou a povoar os sonhos do menino. Nem as madrugadas do fim do ano assustavam. Acordariam juntos para ver a corrida no Japão. Ou melhor, já ficaram no sofá. Tudo para não ter risco de perder a hora da largada.
Aquela largada... Quase como uma ducha de água fria... O motor de Senna engasgou no grid, o carro ficou para trás, mas ele conseguiu sair, já no meio do pelotão, lá para o 18º lugar. Mesmo com a decepção inicial, mãe e filho continuaram no sofá, grudados na tela da TV. Vibravam a cada ultrapassagem da McLaren número 12 narrada com euforia por Galvão Bueno. Clima de final de Copa do Mundo. Senna foi se aproximando de Prost. Fim da 27ª volta. O brasileiro grudou no francês na entrada da reta dos boxes, colocou por dentro, fez a ultrapassagem e assumiu a primeira posição. A comemoração daqueles dois no sofá já acordava a vizinhança. O título tão sonhado estava mais perto do que nunca...
Foram mais 23 voltas de angústia. Senna passou a dominar a prova, mas a bandeirava teimava em não chegar. Afinal, era uma época onde os carros quebravam bastante. Conforme a ansiedade crescia, mãe e filho se abraçavam mais. Última volta! Faltavam apenas 5.859 metros para a festa. Pouco mais de um minuto e 46 segundos para a bandeirada. Os dois ainda estavam apreensivos. A festa veio só depois da curva final. Na TV, Galvão gritava: "Ayrton Senna do Brasil! Campeão mundial de 1988!". O Tema da Vitória tocava. E o sofá? A essa altura, encharcado de lágrimas. Os dois se abraçavam e comemoravam.
Foi um ano decisivo para aquele menino, que já era apaixonado por carrinhos. A Fórmula 1 entrou na vida daquele moleque definitivamente. Incentivado pela mãe, nascia ali uma paixão que o acompanhou até a idade adulta. E, claro, o primeiro ídolo. Ayrton Senna. Os dois passaram a não perder uma corrida sequer. Manhã, tarde ou madrugada... Lá estavam os dois sentados no sofá. Assistiram ao bi, ao tricampeonato. Choraram juntos naquele domingo, 1º de maio de 1994. A paixão pelas corridas continuou viva, contudo, nos dois. O filho continuava na frente da TV em quase todas as manhãs de domingo. A mãe ficou um pouco distanciada, a princípio, mas acabaria voltando a assistir às corridas na TV ainda naquele ano.
E o que aconteceu com os dois? A mãe continua ligada na TV em todos os domingos. Não perde uma oportunidade de assistir a uma corrida na TV. E o filho? Acabou se formando em jornalismo na faculdade e hoje trabalha diretamente com a Fórmula 1, na produção das transmissões para o Brasil, depois de alguns anos escrevendo para o maior site de esportes do país. E pensar que tudo começou naquelas manhãs de domingo no fim da década de 1980 por causa de um piloto de capacete amarelo...
E hoje é um daqueles dias em que os dois lembram, com carinho e saudade, daqueles bons dias... Ayrton Senna completaria 54 anos neste 21 de março. Essa foi só uma das muitas histórias de inspiração que o tricampeão tem no currículo. Mesmo quase 20 anos depois de sua morte, muita gente continua a lembrar de seus feitos e a usá-los como força para se superar. Em nome daquela mãe e daquele filho, só tenho uma forma de encerrar esse texto: Obrigado, Ayrton.
Fonte: Globo Esporte