Qual fanático por futebol nunca pensou em praticar o esporte de maneira profissional? E que tal iniciar a labuta e fechar o dia treinando com boa estrutura, salários sem atrasar e ainda disputando competições profissionais? No América-CE, equipe que conquistou o título da Terceirona do Estadual em 2013 e é vice-líder do Grupo A1 da Segunda Divisão do Campeonato Cearense, há muitos desses personagens. Cerca de 80% dos jogadores trabalham numa rede de farmácias e levam vida dupla de funcionário/jogador de futebol.
Atletas trabalham no depósito de farmácia (Foto: deberlima.blogspot.com.br)Tradicional clube do futebol cearense, campeão estadual nos longínquos anos de 1935 e 1966, o América-CE disputava campeonatos profissionais, mas não tinha boa estrutura para treinos. Já o Grêmio Recreativo da Rede de Farmácias Pague Menos (clube amador dos funcionários da rede de farmácias), que disputava somente campeonatos amadores e tinha bom centro de treinamento, também queria marcar presença nos torneios profissionais. Foi aí que a fusão aconteceu.
Diretor administrativo do Grêmio, Sávyo Santos explica que a ideia sempre foi fornecer espaço e condições de lazer e prática desportiva aos funcionários. No entanto, a qualidade do CT começou a chamar a atenção de equipes locais.
Treino do América-CE ocorre sempre de segunda a sexta, das 16h às 18h (Foto: deberlima.blogspot.com.br)– Conforme as pessoas foram descobrindo, clubes com menor estrutura, como o Calouros do Ar e o Messejana (as duas equipes estão na Terceira Divisão do Campeonato Cearense), nos procuraram para propor parcerias. Mas a melhor proposta foi do América, que iria dividir algumas despesas conosco – pontua.
Jogadores têm jornada dupla: trabalham fora e dentro de campo (Foto: deberlima.blogspot.com.br)Pelo contrato, o América-CE arca com as despesas de jogo, deslocamento e arbitragem. Já o Grêmio Recreativo cede as instalações do CT, suplementos para os jogadores e a mais importante das cláusulas: os atletas. Boa parte dos jogadores do Mequinha é de funcionários do depósito da rede de farmácias, que fica nos fundos do CT. Em números, o projeto da rede de farmácias conta com 46 atletas/funcionários. No América, hoje, treinam 29. Deles, apenas oito são profissionais, 17 são funcionários e há quatro "agregados", como explicou Sávyo.
A parceria já tem mais de um ano. O contrato foi renovado com a participação do Mequinha na Série B do Cearense. Hoje, o time segue na vice-liderança do grupo A1, com 13 pontos, atrás do líder Maranguape, que tem 16, mas um jogo a mais.
– Tudo está caminhando muito bem – diz o presidente do clube, Cleston Santos.
'VIVER SÓ DE FUTEBOL, JÁ PENSOU?'
Quando não estão em campo pelo América-CE, atletas trabalham no depósito de remédios da farmácia(Foto: deberlima.blogspot.com.br)
Gonçalo Pinto prefere ser chamado de Sallu. O zagueiro de 29 anos chegou ao América-CE no começo da temporada. Dividindo o tempo entre o trabalho no depósito e os treinos e jogos do Mequinha, o beque chegou ao emprego indicado por um amigo. A história com o futebol, interrompida após o nascimento do primeiro filho, voltou a ser escrita no América-CE.
– Com filhos, a história fica diferente. Daí, as oportunidades não apareceram mais, e parei de jogar. Mas, com o emprego no depósito, apareceu o América. Aí, mudou para melhor. E olha que é só o primeiro ano de parceria entre os dois – afirma, esperançoso.
Sallu sai de casa às 4h40m para chegar ao trabalho antes das 7h20m, quando bate o ponto. O zagueiro lembra que trabalhava até 17h, todos os dias. Hoje, sai mais cedo, às 15h20m, quando ruma direto para o treino.
– De lá (trabalho), vínhamos para cá (treino), mas só para quem gostava de futebol. Hoje, a atividade ocupa o nosso tempo e nos impede de fazer coisa errada.
O atleta, que já teve passagem pelo Flamengo-PI, orgulha-se dos privilégios adquiridos com o tempo pelos operários/jogadores.
– Em dia de jogo do time profissional, nós não trabalhamos. Antigamente, só se folgava em dia de jogo, mas agora não trabalhamos mais no dia depois do jogo. Vai chegar o tempo em que não vamos nem mais trabalhar, mas sim viver só de futebol. Já pensou? A carteira continua assinada, e treinamos nos dois períodos.
Estrutura utilizada pelo América-CE tem quadra, academia e até salão de jogos (Foto: Arte/Globoesporte.com)
'SÓ CEARÁ E FORTALEZA TÊM IGUAL'
O Grêmio Recreativo já existe há mais de quatro anos. Hoje conta com salão de jogos, piscinas, quadras de futsal, campo de futebol, área de lazer, academia, vestiários e até churrasqueira.
– No começo, quando nós chegamos, a estrutura não era essa. Era outra. Depois da reforma, tudo melhorou. Isso aqui é estrutura de Primeiro Mundo. Só Ceará e Fortaleza têm igual, tenho certeza – afirmou Sallu.
Há ainda uma outra vantagem para aqueles que desejam seguir somente no rumo do esporte. A empresa dá uma licença não remunerada ao atleta que despertar interesse de um clube de maior expressão.
– Alguns dos nossos jogadores já foram sondados por outros clubes. Daí nós os liberamos para tentarem a vida no esporte, damos uma licença não remunerada. Se der certo no time, ficam por lá. Caso contrário, podem voltar para cá para trabalhar novamente conosco e se dedicar ao América – explicou o administrador Sávyo.
O América teve tudo para ter um bom desempenho na Taça Fares Lopes em 2013, mas acabou não passando de fase. Nos dois primeiros jogos, porém, venceu os dois favoritos à classificação para a etapa seguinte da competição em seu grupo: Tiradentes (3 a 2) e Ferroviário (2 a 1).
– Mérito mesmo para os funcionários, que no decorrer da temporada eram praticamente 70%, 80% do time. Isso prova a nossa força, a nossa união, o que podemos render – declara Sallu.
BALCONISTA, JOGADOR DE FUTEBOL E CORREDOR DE RUA
Leandro de Souza, atacante de 28 anos, é um dos que não trabalham no depósito atrás do CT. Balconista de uma das farmácias, o jogador também está no projeto desde o início e tem de distribuir bem o tempo para arcar com todas as responsabilidades de trabalhador e atleta. O centroavante bom de bola foi um dos nomes agregados ao time do América logo no início da parceria.
– Houve alguns campeonatos amadores e outros internos, e sempre me destaquei fazendo gols. Quando a parceria com o América começou, fui chamado para compor a equipe. E quantos gols fiz desde que jogo pelo Grêmio Recreativo? Eita, perdi as contas.
Além de trabalhar de 9h às 15h e treinar profissionalmente no América, o jovem atacante arruma tempo para uma terceira atividade: a de corredor. Destaque em inúmeras competições de corrida de rua promovidas pela empresa em que trabalha, esteve no pódio em todas, mas garante não "treinar a mais" para competir.
– Já é o quarto ano de circuito que participo. Em todos estive no pódio entre os funcionários. Como atleta do Grêmio, sempre me destaco. A rotina cansa, mas é isso o que amo fazer, então dá tudo certo – garante.