Diego Costa pode não jogar a final de sábado, mas sua relevância na heróica caminhada doAtlético de Madrid é inegável. A história do brasileiro naturalizado espanhol dentro do clube ilustra todo o processo do "Cholismo", incorporado com efeitos imediatos após a chegada de Diego Simeone, ainda em dezembro de 2011. Da crise com o 10º lugar no Campeonato Espanhol e eliminação precoce na Copa do Rei até a final da Liga dos Campeões dois anos e meio depois, o argentino revolucionou um time sem precisar inventá-lo. As peças simplesmente já estavam ali.
Diego, o Costa, já pertencia ao Atlético àquela época - recuperava-se de lesão grave no joelho antes de ser emprestado pela quarta vez. É basicamente uma das únicas exceções relevantes no elenco colchonero que definirá se sua temporada será histórica ou mais do que isso no próximo sábado, na decisão contra o Real Madrid, em Lisboa. A TV Globo e o GloboEsporte.com transmitem o jogão ao vivo às 15h45 (de Brasília) - o site acompanha todos os detalhes com um pré-jogo especial a partir das 13h30.
Simeone e Diego Costa comemoram gol do Atlético: atacante é uma das novidades desde estreia do argentino (Reuters)
MEIO TIME DE ARTILHEIROS
Nove dos 11 considerados titulares neste time já vestiam a camisa rojiblanca: Courtois, Juanfran, Miranda, Godín, Filipe Luís, Gabi, Tiago, Koke e Arda Turan. David Villa é o outro nome, mostrando que apenas o ataque não é intocável. Também, pudera. O histórico recente mostra que vender os seus artilheiros mesmo que estejam próximo do auge é, sim, uma medida austera e responsável.
Aconteceu com Fernando Torres. Em 2007, uma já consagrada promessa da base colchonera foi para o Liverpool por € 38 milhões. Sergio Agüero, que custou € 21,7 milhões junto ao Independiente, em 2006, saiu em 2011 por € 45 milhões. No mês seguinte, Diego Forlán rumou para o Inter de Milão por € 5 milhões - foi o único dos renomados a não renderem lucro, já que havia sido comprado por € 21 milhões, apesar de todos os serviços prestados dentro de campo.
O dinheiro recebido nas duas transações permitiu um investimento pesado. O colombiano Falcao García chegava por € 47 milhões depois de uma temporada estrondosa com o Porto. Pois ele manteve as grandes atuações, foi protagonista nos títulos da Liga Europa e Copa do Rei e tornou insustentável a sua permanência dois anos depois. O Monaco, com € 60 milhões, ainda gerou uma margem satisfatória no caixa do clube.
Animação com os artilheiros: Falcao, Diego Costa, Forlán, Torres, Agüero e David Villa (Foto: Reprodução / Just Toon It)
David Villa pode não ter um grande mercado aos 32 anos, mas Diego certamente compensará.Veículos da Inglaterra, Itália e Espanha garantem que o Chelsea chegou a um acordo com o Atlético pela compra do brasileiro por 32 milhões de libras (cerca de R$ 120 milhões). É praticamente certo que, se não se recuperar da lesão muscular sofrida diante do Barcelona, sequer voltará a defender o Atlético. E ele custou apenas 1,32 milhão de libras em 2007...
O ABISMO CHAMADO REAL MADRID
Simeone não precisou quebrar o cofrinho para apostar num Villa praticamente dispensado do Barcelona. Tampouco teve ir ao mercado para encontrar Diego Costa. Precisou, sim, dar uma chance a ele após seguidas temporadas longe do Vicente Calderón. Foi o necessário para vê-lo desabrochar. O mesmo se passou com nomes hoje incontestáveis como Courtois, Koke, Miranda, Filipe Luís, Arda Turan, entre outros. Convertê-los em campeões num clube "amaldiçoado" por uma sina de derrotados foi o seu maior mérito.
Gareth Bale custou € 91 milhões ao Real: valor impensável para o Atlético de Madrid (Foto: Efe)
O Real Madrid é praticamente o oposto. Culturalmente, acostumou-se a times galácticos, cifras megalomaníacas. Eles podem: faturaram quatro vezes mais do que os colchoneros desde 2009 (€ 2,3 bilhões e € 558 milhões), com média de mais de € 300 milhões a cada ano. Daí desejos como Cristiano Ronaldo (€ 94 milhões) e Gareth Bale (€ 91 milhões) são mero passatempo. Até mesmo reservas como Isco e Illarramendi, que custaram € 30 milhões cada no verão europeu passado, ultrapassam os limites do Atlético. Sem falar em Casemiro, contratado em baixa no São Paulo por € 6 milhões. Competir, neste caso, apenas com muita competência.
Modesto, o Atlético foi evoluindo ano a ano. Simeone implementou uma mentalidade positiva, abusou dos ideais de quem praticamente vive para o futebol e apostou na preparação física. O elenco enxuto atual proporcionou os maiores números de minutos na liga espanhola a Juanfran, Gabi, Diego Costa, Koke, Filipe Luís, Miranda (é o líder no quesito na Liga dos Campeões). Nenhum deles parece exausto quando está em campo. Aí entra em cena outro aspecto fundamental: a garra, quase uma fé cega no que aquele ex-jogador de características semelhantes tem a dizer. Correm também por ele.
EVOLUÇÃO GRADATIVA
Em janeiro de 2012, quando fez a sua estreia como comandante do Atlético, Simeone pegou um time na 10ª posição, com 22 pontos. O Sporting Gijón, o primeiro da zona de rebaixamento, tinha 15. O líder Real Madrid já rumava para o título, com 43. Pois os colchoneros arrancariam para a quinta colocação. E de lambuja conquistariam uma Liga Europa então desacreditada. Era o começo da Era Simeone.
Falcao García com o troféu da Copa do Rei: fim do jejum sobre o arquirrival (Foto: EFE)
Objetivos maiores foram alcançados paulatinamente. Uma goleada avassaladora sobre o Chelsea (4 a 1) rendeu a Supercopa da Europa em agosto de 2012. No fim da temporada 2012/13 veio o terceiro lugar no Espanhol, a Copa do Rei e a quebra de um jejum de dolorosos 14 anos (e 25 jogos) contra o mesmo Real Madrid numa final no Santiago Bernabéu.
Aos que pensaram em aborto da natureza, o Atlético venceu também o jogo seguinte: 1 a 0 novamente no Bernabéu, já válido pelo Campeonato Espanhol. Resultado que acabou sendo decisivo para o primeiro título espanhol do clube desde 1996 - e o primeiro de um "intruso" no duopólio de Real e Barcelona desde 2004. O fato de o Atlético ter erguido mais taças que a dupla na "Era Simeone", mesmo diante de tantas adversidades, só atesta o quão louvável é o trabalho do argentino. Como não acreditar em nova façanha no sábado?