Felipe Massa esteve muito perto de conquistar o título em 2008. Mas nos anos seguintes, com o grave acidente de 2009 e a forte concorrência de Fernando Alonso, não conseguiu mais o papel de protagonista. Nesse ano, porém, o jogo parece virar. Em sua nova casa, a Williams, ele vive a expectativa de voltar a lutar por vitórias e títulos com a boa performance do FW36 na pré-temporada. Em entrevista a jornalistas brasileiros em Melbourne às vésperas do GP da Austrália, que abre o campeonato de 2014 no próximo domingo (3h de Brasília), o piloto de 32 anos não esconde o otimismo com as perspectivas renovadas para sua carreira. Torcendo para agora “estar no lugar certo no hora certa”, ele não escondeu que, nos momentos difíceis na Ferrari, pensou até que sua carreira na Fórmula 1 estaria chegando ao fim:
- Pensei em muitas coisas. Pensei até que não poderia continuar na F-1, que minha carreira poderia acabar. Se eu não achasse uma equipe decente para continuar eu sempre falei que preferia não continuar. Estou aqui para correr em uma equipe que me dê um carro para trabalhar. Tudo que você pode imaginar eu pensei. Faz parte de uma carreira. Há momentos bons e momentos difíceis onde você acaba pensando em tudo. A gente tem que estar preparado para voltar a ser competitivo. E tomara que isso aconteça.
E após oito anos de Ferrari, ao fazer uma comparação com sua nova equipe, Massa destacou a atenção que recebeu na Williams nos testes e comemorou o novo papel de “líder”.
- Tudo que eu falo eles me ouvem. Muitas coisa que enxergo que não é o certo, eles mudam e fazem do jeito que peço. No desenvolvimento do carro, tudo que pedi pra mudar, para experimentar, eles fizeram. A equipe ouve, quer fazer. Está sendo muito bom, muito bacana. Uma boa sensação de liderança, de estar em uma equipe onde a sua palavra é superimportante. Isso te dá motivação extra, alegria.
E a partir desta quinta-feira, 22h30 de Brasília, no primeiro treino livre para o GP da Austrália (transmissão do SporTV), será possível começar a ter noção das chances de Felipe Massa em 2014. E caso a boa expectativa seja confirmada e aconteça um bom resultado no domingo, o experiente brasileiro lembra:
- Para vencer o campeonato não basta apenas começar bem, é preciso desenvolvimento da primeira corrida até a última. O desenvolvimento durante o ano conta muito, ainda mais em uma temporada como essa, com tantas mudanças.
Confira a entrevista completa com Felipe Massa em Melbourne:
Você e a Williams foram muito bem nos testes do Bahrein. Há motivos para estar otimista?
Sem dúvida. Temos bons motivos para começar bem o ano, otimista. Mas é preciso ser otimista independentemente de o carro, você ou a equipe estar 100%. É sempre bom estar otimista para começar uma temporada. Mas acho que toda mudança pela qual estou passando, do regulamento, da equipe... É mais um motivo ainda para estar otimista. Sem dúvida há motivos extras, como ser competitivo nos treinos, quebrar menos que muitos outros carros. Acho que são motivos a mais.
Como está a convivência na Williams após tantos anos na Ferrari?
Está muito boa. Fui muito recebido dentro da equipe. As sensação que tenho é muito boa, muito positiva. Tudo que eu falo eles me ouvem, 120%. Muitas coisa que enxergo que não é o certo, eles mudam e fazem do jeito que peço. Na sensação que tive do primeiro até o último dia com o desenvolvimento do carro, tudo que pedi pra mudar, para experimentar, eles fizeram. A equipe ouve, quer fazer. Está sendo muito bom, muito bacana. Uma boa sensação de liderança, de estar em uma equipe onde a sua palavra é superimportante. Isso te dá motivação extra, alegria. É uma equipe que sofreu muito nos últimos anos e eu sofri também. Temos muito a ver, os momentos difíceis que passamos.
Está sentindo mais prazer com seu trabalho nesse ano do que nos anos anteriores?
Estou sentindo. Não que eu não tenha sentido no passado. De vez em quando um recomeço é bom. Chega uma hora que tudo é sempre a mesma coisa, tudo do mesmo jeito. Chega uma hora que a mudança é algo bom. Não foi só para mim, foi para a Ferrari também. Uma mudança em geral tem seu lado positivo. Me sinto aliviado, renovado, leve. Mudança é bom. A pressão é um pouco diferente quando você é um piloto da Ferrari, mas pressão sempre tem. E se você tiver um carro competitivo, a pressão vai ser alta independentemente da equipe. Mas estou bem, estou tranquilo, relaxado. E espero que continue assim desse jeito, trabalhando bem.
Quando você acertou com a Williams, muitos pensaram que era o fim de sua carreira. E após a equipe surpreender na pré-temporada, muitos falaram de sorte. Caso o bom momento do time seja confirmado, pode creditar à sorte ou a uma boa análise da situação da Fórmula 1?
Sorte sempre conta. Sempre é importante ter sorte de achar uma mudança que talvez dê certo. Uma mudança às vezes pode ser melhor que do que você imaginava, às vezes não. Sorte faz parte de qualquer coisa que gente faz na vida. Mas eu analisei muito. Tentei entender o que estava acontecendo para o futuro. Participei de muitas coisas junto com a minha ex-equipe para o carro de 2014, guiei o carro no simulador muitas vezes. Entendi muitas coisas que estavam acontecendo, ouvi muitas pessoas experientes sobre o que imaginavam de 2014, falaram sobre outras equipes, falaram sobre motor. Entendi o que estava acontecendo com outras equipes com quem conversava. Vi que elas estavam só perdendo engenheiros, pessoas. Analisei muitas coisas. A análise foi fundamental, sem dúvida. Eu não sabia o quanto o carro seria competitivo. Isso a gente só sabe quando andamos e comparamos com os outros. Pois às vezes você anda no carro e acha perfeito, mas quando vai comparar com os outros ele é lento. Isso é impossível prever. Mas saber se a sorte aconteceu ou não, a gente vai entender nas corridas, que é o que conta. E se isso acontecer, a análise e o estudo terá sido fundamental.
De repente a Williams passou a estar no centro das atenções, como a Brawn em 2009. Os brasileiros estão empolgados. Como você está lidando para conter a grande expectativa.
A chance de talvez não ser o que muita gente espera existe. A gente tem que ter o pé no chão. Rezo para que seja igual a Brawn. Mas é muito cedo para dizer. Na minha opinião, a Mercedes é a equipe principal. Se depois da Mercedes é a gente ou não aí eu não sei. Que a gente está bem, que o carro foi competitivo nos testes isso é claro. O quanto? A gente vai começar a ter resposta nesse fim de semana. Mas é importante manter os pés no chão, usar a experiência que tenho, momentos bons, momentos ruins. Muitas equipes que não estavam prontas até os testes, mas podem chegar aqui prontas e tudo o que a gente viu ser o contrário.
Piloto da Brawn em 2009, Rubens Barrichello traçou um paralelo entre a carreira dele e a sua. Após anos de Ferrari ele “renasceu” para a Fórmula 1 em outra equipe de motor Mercedes. Você acha que a história pode se repetir?
Tudo é possível. Nada é impossível nesse mundo. Na Fórmula 1 é preciso sempre estar no lugar certo na hora certa para que tudo funcione. Acho que se isso acontecer, sem dúvida posso ter toda a chance de disputar vitória, campeonato. É tudo sempre que sonhei, que lutei para acontecer. Já passei por isso, sei fazer isso. É importante que isso aconteça. É esperar para ver.
Com todas as mudanças no regulamento, a Fórmula 1 desse ano exige mais do piloto do que no ano passado?
Difícil dizer. Acho que sempre exigiu do piloto, independentemente do regulamento diferente, do jeito de guiar. Muitas vezes aconteceu de ser melhor para o estilo de um piloto do que para outro. Sempre exigiu, vai continuar exigindo.
Dá para ter uma ideia de onde a Williams está em comparação às outras equipes?
É importante a gente começar. Para ver onde a gente está em uma simulação de corrida onde todos estão fazendo a mesma coisa. Não onde um piloto saiu com o pneu mole, outro com o pneu duro e a diferença de tempo é gigante, um está fazendo simulação de corrida, outro volta rápida. Não dá para analisar quem estava bem e quem não estava bem nos testes. Quando tiver andando todo mundo junto, para valer, é que teremos uma certeza.
Pelo que sentiu da estrutura que a Williams está construindo, dá para se manter na briga com times endinheirados como Mercedes, Ferrari e RBR?
Sinto que a Williams está em uma estrutura de desenvolvimento. Ainda não podemos comparar o orçamento da Williams com o orçamento da Ferrari, da Mercedes, da RBR. Mas sinto que a Williams está em um momento de desenvolvimento, para chegar lá, para ter tudo o que é possível para disputar como as equipes grandes que citei investem. Para vencer o campeonato não basta apenas começar bem, é preciso desenvolvimento da primeira corrida até a última. Já passei por experiências, na época que disputei títulos, onde o carro da primeira corrida era completamente diferente da última, como já passei campeonatos onde o carro da primeira corrida e o da última eram praticamente iguais. Se isso acontecer, esquece que você não vai disputar o título. O desenvolvimento durante o ano conta muito, ainda mais em uma temporada como essa, com tantas mudanças.
Hoje, você vive a expectativa de voltar a brigar por vitória e títulos. Nos últimos anos da Ferrari, você chegou a pensar que nunca mais teria outras chance de ser campeão?
Pensei em muitas coisas. Pensei até que não poderia continuar na F-1, que minha carreira poderia acabar. Se eu não achasse uma equipe decente para continuar eu sempre falei que preferia não continuar. Estou aqui para correr em uma equipe que me dê um carro para trabalhar. Tudo que você pode imaginar eu pensei. Faz parte de uma carreira. Há momentos bons e momentos difíceis onde você acaba pensando em tudo. Tudo muda rápido. No esporte muitas vezes aconteceu de o time que você não dava nada ser campeão. E o time que era o número 1 gastou fortuna para pegar os melhores jogadores do ano inteiro e não conseguiu. A gente tem que estar preparado para voltar a ser competitivo. E tomara que isso aconteça. Sempre fui positivo. Mas tem que esperar a chance acontecer. E espero que aconteça agora.



Fonte: Globo Esporte