Não peça para a comerciante Eliana Homem de Mello Prado puxar o coro do "Parabéns" em algum aniversário. Moradora de Jacareí (SP) a neta de Bertha Homem de Mello – autora da versão brasileira da canção – não canta a música, criada há 70 anos, em respeito à avó falecida em 16 de agosto 1999 "porque todo mundo canta a letra errado".
Segundo ela, dois dos versos da canção original são alterados nas festas de aniversário pelo país. Em vez de "Parabéns pra você" deveria ser cantado "Parabéns a você" e o verso "Muita Felicidade" é constantemente alterado para o plural "Muitas felicidades". "Minha avó ficava louca da vida quando ouvia o cantar da letra errado, porque ela sempre foi muito vaidosa. Então, eu não me permito cantar do jeito errado. No 'é pique' eu entro, mas antes eu não canto", brinca.
A filha de Bertha Homem de Mello, mãe de Eliana, vive até hoje na casa onde a autora morou por mais de quatro décadas em Jacareí. Lorice Homem de Mello, que tem deficiência auditiva e visual, conta com a ajuda de três cuidadores. "Minha mãe era o xodó da minha avó e graças a Deus esse legado que ela deixou, também no aspecto financeiro, tem sido revertido totalmente para cuidar da minha mãe", assegurou.
Arrecadação de direito autoral
A música continua sendo uma das executadas em todo o país, segundo o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), órgão responsável pelo recolhimento de direitos autorais no país. Segundo dados do Ecad, o "Parabéns a Você" está há quatro anos entre as duas primeiras músicas mais executadas nos segmentos Música Ao Vivo e Salão de Festas. O órgão, porém, não divulga o número de execuções e nem os valores arrecadados anualmente. O repasse à família é feito mensalmente.
Para Eliana, a composição é um legado que Bertha deixou para a família. "É algo importantíssimo. É impossível ir a algum aniversário e não lembrar da minha avó. É marcante. É o orgulho de toda família e especialmente da minha mãe. Quando meus filhos contam que a bisavó foi quem escreveu a letra, a maioria das pessoas não acredita", afirma.
Por ser uma canção que tem autoria, o 'Parabéns a Você' recolhe dinheiro dos direitos autorais sempre que é executada publicamente ou usada em filmes, novelas e programas de rádio e TV, assim como a gravação de discos e CDs. Atualmente, a família recebe 16,66% de tudo que é arrecadado pelo Ecad pelas execuções da canção no Brasil. Os 83,4% restantes são divididos igualmente entre a editora Warner Chappell – detentora da música original – e os herdeiros das autoras americanas.
Coautor?
Em uma reportagem da TV Globo de 23 de março de 1997 é possível ver realmente que Bertha Homem de Mello gostava que a letra fosse cantada de forma correta.

Mas durante mais de três décadas, a autora da versão nacional ficou sem receber metade dos direitos autorais aos quais tinha participação na música. Isso, porque em 1978 o produtor musical Jorge Gambier firmou um contrato com Bertha Celeste por acrescentar mais quatro frases na canção.
A quadra criada por Gambier, que continuava o tradicional ‘Parabéns’, seguia a mesma melodia e tinha os seguintes versos: "A você muito amor / E saúde também / Muita sorte e amigos / Parabéns, parabéns". Segundo a família, Jorge se justificou dizendo que produziu um disco infantil na década de 1970 e queria gravar a canção, mas como a letra era curta ele pediu autorização à editora para completá-la e foi informado que deveria firmar um acordo com a então autora da música.
A situação só foi resolvida no final de 2009, quando um advogado contratado pela família de Bertha conseguiu que a editora Warner retirasse Gambier como coautor. Na época houve um ‘ajuste de crédito’ dado à família pelo tempo que os direitos ficaram divididos. Desde então, a herdeira de Bertha recebe a parte que lhe cabe, que é de 16,66%.
Como 'nasceu' o Parabéns
A música mais cantada em todo o mundo foi criada nos Estados Unidos em 1875 pelas irmãs Mildred e Patrícia Hill, professores primárias da cidade de Louisville, no Estado de Kentucky. Elas compuseram uma pequena quadra chamada ‘Morning to all’ (Bom-dia para todos) para cantar com os alunos pela manhã, antes do início das aulas.
Após cinco décadas, em 1924, uma editora de música norte-americana lançou o livro de partituras ‘Celebration Songs’ e ‘pegou emprestada’ a melodia das irmãs para criar uma música que seria cantada em festas de aniversários. Assim, nasceu o ‘Happy Birthday To You’ (Feliz Aniversário para Você).
A letra original era composta de um verso apenas, em que havia a repetição por quatro vezes do ‘happy birthday to you’, sendo acrescentando o nome do aniversariante na terceira repetição no lugar do ‘to you’. A popularização mundial da música ocorreu em 1933, quando uma peça teatral da Broadway utilizou a canção.
Concurso no Brasil
Em 1942, o cantor Almirante, pseudônimo de Henrique Fóreis Domingues, que apresentava um programa na Rádio Tupi do Rio de Janeiro, resolveu promover um concurso para escolher uma letra em português da canção.
A música da compositora, que era farmacêutica e poetisa em Pindamonhangaba, também no Vale do Paraíba, foi escolhida por uma comissão julgadora formada pelos membros da Academia Brasileira de Letras.
A comissão aprovou a versão brasileira, que seria uma das poucas que apresentava quatro versos diferentes. Dentre os avaliadores estava Cassiano Ricardo, poeta de São José dos Camposx.Paraiba, venceu um concurso nacional com cinco mil inscritos. O disco que lançou o 'Parabéns' foi gravado dois anos depois.
"Ela contava que soube do concurso e estava pensando em escrever a letra, aí um dia o rapaz que trabalhava perto do sítio disse que iria para a cidade e se ela queria alguma coisa. Daí ela escreveu o 'Parabéns' em cinco minutos e deu para ele colocar no Correio", relembra a neta. Bertha também tem poesias publicadas e já teve uma canção gravada pelo músico Rolando Boldrin. Ela morreu aos 97 anos e está sepultada em sua cidade natal.
Cerca de cinco mil letras foram enviadas à emissora fluminense e foi considera vencedora a de Léa Magalhães – pseudônimo de Bertha Homem de Mello – depois que uma comissão julgadora formada pelos membros da Academia Brasileira de Letras aprovou a versão brasileira, que seria uma das poucas que apresentava quatro versos diferentes. Dentre os avaliadores estava Cassiano Ricardo, poeta de São José dos Campos.

